sábado, 15 de junho de 2019

Living Metal - Resenha EP “Hail the true Metal and fuck all the posers” (2018)

A taxonomia é uma disciplina que minunciosamente define grupos de organismos biológicos baseando-se em características comuns, dando então nomes a esses grupos. O interessante é que para cada grupo é dado também um tipo de nota. Quando agregados, esses grupos formam supergrupos com maior pontuação, criando assim uma “classificação hierárquica”. Aristóteles (Grécia, 384-322 a C) foi um dos primeiros a classificar de forma informal todas as coisas vivas, inclusive alguns termos usado por ele, como invertebrados e vertebrados, são usados até hoje.
 
Levando esse tipo de disciplina para a música mundial, podemos dizer (assim como citado pelo jornalista e crítico musical do New York Times Jon Pareles) que na taxonomia da música popular o Heavy Metal tradicional é a principal subespécie do hard rock — o tipo com menos síncope, menos blues, com mais ênfase no espetáculo e mais força bruta.  Desta forma, podemos dizer que devido a suas subdivisões o Heavy metal reina absoluto no topo da classificação hierárquica da música pesada.

Uma banda que ostenta com mãos caprichosas a força do Heavy Metal tradicional e a paulistana Living Metal. Formado em 2018 pelo guitarrista Rafael Romanelli (que também tocou no ZUMBIES DO ESPAÇO), a banda tem como objetivo seguir à risca essa linha tradicional, com som e letras de cunho clássico e envolvente, focando no entretenimento com muita cerveja, motocicletas, Metal, espadas, correntes, pregos, couro, cintos de bala de fuzil e jaquetas com patches.

Em outubro de 2018 a banda lançou o EP “Hail the true Metal and fuck all the posers” entrando com muito vigor na cena nacional, destacando – se inclusive entre públicos variados, em especial aos amantes da N.W.O.T.H.M. . O EP foi gravado no estúdio Casanegra, de Rafael Augusto Lopes, com cinco músicas gravadas por Rafael Romanelli (guitarra, baixo e refrão), Pedro Zupo (vocal), Amilcar Cristófaro (bateria) e Fernanda Lira (voz feminina adicional).


O EP abre com a curta “Are You Ready For Metal?”, faixa que climatiza e abre o caminho conceitual para as próximas canções. Com uma pegada forte e sem floreios modistas “Are You Ready For Metal?” é uma excelente e inteligente introdução, pois além de ser contagiante ela consegue mostrar em poucos segundos a personalidade da banda.

No maior estilo Manowar (porém longe de ser cópia) a segunda faixa do trabalho intitulada “Living for Metal” é um verdadeiro salto no tempo. Um presente para os amantes de Heavy Metal tradicional, destaque para o forte riff e excelente linha vocal. Impossível ouvir essa faixa sem sentir vontade de cantar a pleno pulmões: “LIVING FOR METAL – RAISE YOUR FISTS IN THE AIR”.

“Fire On Two Wheels” é a trilha sonora perfeita para os amantes de motocicletas. Com um riff marcante nos moldes de Judas Priest, a canção despeja aquele sentimento da estrada coberto pela aura dos roncos dos motores. Mais um vez quero destacar a bela interpretação vocal de Pedro Zupo que conseguiu um ótimo resultado despejando agressividade espontânea e marcante. Destaque também para expressivo solo e bela timbragem de baixo. 



Chegamos ao ponto mais nostálgico do EP. “Back To The 80'S” musicalmente nos remete (como sugere o nome) ao começo dos anos oitenta, precisamente entre aquela transição do Hard para Heavy Metal. A letra mostra um pouco sobre a gloria destes anos dourados (“you may say i'm living when I sing about the past but I lived the golden years won´t be back anymore”) ao mesmo tempo que faz uma pequena crítica ao modismo atual (“Music was made for ears and not to the eyes”). “Back To The 80'S” porta-se como uma das melhores faixas do disco, principalmente por seu marcante refrão e nostálgico Riff.


Encerrando o trabalho temos o hino “Hail! The True Metal (Will Never Die)”. A musica tem uma base/riff bem solida que serve de alicerce durante quase toda a canção, sendo interrompida somente aos 2:35 minutos quando um dedilhado envolvente seguido por um caprichoso solo enchem nossos ouvidos com técnica e sentimento. A Faixa é um Heavy Metal tradicional que em certos momentos climáticos me lembrou o Metal Church. Destaque desta vez para a precisa execução de bateria que conseguiu ser pesada mesmo nos momentos mais “progressivos” da canção.


Vale lembrar também que o álbum apresenta uma versão da música Rocka Rolla (cover do Judas Priest) que é encontrado somente nas plataformas digitais da banda.

Em suma, se gosta de Heavy Metal tradicional tocado com vontade e expressividade corra atrás da Living Metal e de seu EP “Hail the true Metal and fuck all the posers”. 

 Altamente recomendado! Ansioso pelo Debut!!

Living Metal’s complete line-up:

Pedro Zupo – vocals
Rafael Romanelli – guitar
Jonas – guitar
João Ribeiro– bass guitar
Jean Praeli – drums

Links:



domingo, 19 de maio de 2019

Black Metal – A política do Black Metal Norueguês


Introdução
Após o recente lançamento do filme “Lords of chaos” (que conta os acontecimentos ocorridos nos anos 90 com a chamada “segunda onda do Black Metal” que envolveu queima de igrejas e assassinatos), muitos voltaram a debater sobre os reais motivos pelo qual Varg Vikernes (Burzum) teria assassinado seu “amigo” Euronymous (Mayhem).
Um fato pouco mencionado é o lado político envolvido no meio do Black Metal norueguês, fato este que em minha opinião foi uns dos principais motivos pelo qual tudo tenha acontecido como o registrado. Para darmos prosseguimento a este ponto de vista, primeiro vou resumir a origem do Black Metal norueguês e apresentar para quem ainda não conhece os criadores deste estilo ímpar.
Os primórdios do Black Metal
Quando Aleister Crowley disse: “Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei”. Não imaginou que o hedonismo proposto seria usado por conservadores para chamar de satanistas aqueles que pregavam a liberdade. O Rock é um dos exemplos. A velha máxima “sexo, drogas e Rock N’ Roll” tornou-se uma afronta aos preceitos religiosos e logo ligada ao satanismo devido uma aparente individualidade.
Claro que os argumentos da igreja em relação ao tema são mais profundos, porém a meu ver errôneos. Sabemos que o aspecto libertário, rebelde e contestador se deve apenas a uma forma simbólica que o Rock usa contra padrões impostos. Porém quando o ocultismo passou a fazer parte do enredo lírico de discos e músicas a Igreja logo sentenciou: “O Rock é coisa do Diabo”!
Essa estigma tornou-se tão forte (e rentável), que algumas bandas passaram a adotar abertamente temas satânicos, anticristãos e pagãos em suas letras e temas visuais. Desta forma, tanto musicalmente quanto ideologicamente, muitas bandas lutavam para ser a mais sombria, cru e agressiva, levando vários a uma competição de insanidades, dando origem a estilos mais extremos como o Thrash Metal e o Death metal.
Durante os anos de 1980, um enumerado de bandas de Thrash e Death Metal formaram o alicerce do que viria a ser o Black Metal. Essa chamada “primeira onda do Black Metal” trouxe bandas como Hellhammer, Bathory, Celtic Frost, Mercyful Fate e Venon. 
O termo “Black Metal” foi retirado de um álbum dos ingleses do Venon lançado em 1982, intitulado “Black Metal”. Mesmo o álbum soando mais “Heavy/thrash” o disco fugia dos padrões apresentando temas mais focados no anticristianismo e no satanismo, diferente do que muitos músicos faziam na época. Outra contribuição importante do Venon foi o fato dos membros da banda adotarem pseudônimos, prática que se tornou praticamente lei dentro do Black Metal.
O estilo teve um grande e rápido crescimento, fazendo com que um importante nome do Black Metal mundial surgisse para mudar o estilo para sempre, seu nome: Øystein Aarseth, mais conhecido como Euronymous.

Segunda geração do Black Metal (O Black Metal Norueguês)
Após longos estudos não tem como negar o fato que a Noruega foi sim responsável pela popularidade, estigma e criação do que conhecemos hoje como verdadeiro Black Metal.
 A cena norueguesa era profundamente anticristã e tentava apagar o cristianismo e outras religiões não-escandinavas de sua cultura. Para isso os músicos não usavam apenas sua arte, mas sim atitudes violentas. A banda mais importante para o surgimento deste movimento (a meu ver) foi o “Mayhem”, tanto por sua inovação musical quanto por seus importantes integrantes.
O “Mayhem” foi fundado em 1984 em Oslo, Noruega, pelo já citado guitarrista Euronymous, o baixista Necrobutcher e o baterista Manheim e influenciou fortemente todo o Black Metal sendo fundamental para a evolução do metal extremo mundial.

Podemos definir algumas bandas como propulsores do que se tornou a segunda geração do Black Metal. A musicalidade podemos dizer que nasceu com a Tormentor (Hungria), a estética veio do Bathory (Suécia), o nome do Venon (Reino unido), e a atitude surgiu aqui em terras tupiniquins com o Sarcofago. Juntando tudo isso mais o modo inovador de tocar guitarra desenvolvido por Euronymous, no qual ele tocava acordes completos usando todas as cordas da guitarra ao invés de power chords com apenas duas ou três cordas, estaria definido o que hoje chamamos de “True Norwegian Black Metal”.
Sem contar que também foi no Mayhem que o corpse paint passou a fazer parte do Black Metal. Per Yngve Ohlin (Dead), então vocalista do Mayhem, maquiava-se como um cadáver nos shows e ensaio da banda.
Confira o gráfico:

Claro que várias bandas contribuíram para que o estilo fosse conhecido no mundo todo, além do Mayhem não podemos deixar citar as importantíssimas Burzum, Darkthrone, Emperor, Gorgoroth e Immortal. Porém, as mais proeminentes figuras da cena norueguesa foram mesmo Euronymous do Mayhem e Varg Vikernes do Burzum, muito devido aos bizarros acontecimentos que falarei mais adiante.
Inner Circle e Deathlike Silence Productions  
Grande parte do movimento Black Metal na Noruega era organizado por Euronymous através de um seleto grupo (que era composto por amigos próximos e bandas), que ficou conhecido como “Inner Circle” (ou Black Circle como chamava alguns). A sede do Inner Circle era o sótão da loja de discos de Euronymous, chamada de “Helvete” (ou Inferno). A loja, além de vender exclusivamente discos de Metal, também tinha um estúdio de gravação que pertencia ao selo de Euronymous a Deathlike Silence Productions.
Um importante fato a ressaltar em relação a Deathlike Silence Productions (além claro dos excelentes e icônicos álbuns lançados por ela) é a ideologia por de traz do selo. Euronymous trazia no logo de seu selo as regras do verdadeiro Black Metal:
 “No fun, no core, no mosh and no trends”, traduzido livremente como: Sem diversão, sem core (referente a estilos como hardcore, metalcore, grindcore), sem mosh (o Black metal era pra ser sentido e não divertido a ponto de dar mosh), e sem moda.
Queima de Igrejas, assassinatos e suicídio
Queima de Igrejas:
Para alguns membros do Inner Circle não bastava apenas música para expressar seu ódio contra o cristianismo, mais sim atos. Foi então que uma onda de incêndios a igrejas cristãs começou, até 1996 houve ao menos 50 igrejas queimadas, a mais conhecida foi a de “Fantoft Stave”, queimada por um membro do “Inner Circle” com ajuda de Varg Vikernes que na época era conhecido como Count Grishnackh. O Inner Circle levou até as últimas consequências o fato de viver os reais ideais do Black Metal, queimar igrejas foi só o começo…

Suicídio:
Em Abril de 1991 o vocalista do Mayhem Per Yngve Ohlin, mais conhecido pelo pseudônimo “Dead”, comete suicídio com um tiro de espingarda na cabeça, depois de ter cortado os pulsos e garganta, deixando apenas uma singela carta que dizia: “Desculpem pelo sangue”.
O corpo de Dead foi encontrado por Euronymous. Antes de chamar a polícia, o musico foi a uma loja próxima comprou uma câmera fotográfica e tirou fotos do cadáver. Uma dessas fotografias foi usada pelo guitarrista numa capa do Mayhem o Bootleg “Dawn of the Black Hearts”.
Boatos diziam ainda que Euronymous recolheu pedaços do crânio de Dead e fez colares que distribuiu entre alguns membros do Inner Circle. Dead, que nunca se deu bem com Euronymous, tinha um certo fascínio pela morte e acreditava que a vida era somente um sonho. Nos shows, o musico carregava um saco onde dava periódicas baforadas, no interior deste saco tinha um corvo morto que servia, segundo o vocalista, para sentir a essência da morte.
No final de novembro de 2018, a empresa Serial Killers Ink colocou à venda um pedaço do crânio de Dead por US $ 3.500
Dead vestia roupas que anteriormente tinha enterrado e onde proliferavam vermes e insetos, sem contar que ele costumava se cortar com facas e vidros. Durante um show em Sarpsborg, em 1990, os cortes foram tão profundos que ele teve de ser levado ao hospital por causa da severa perda de sangue.
Assassinatos:
Em 21 de agosto de 1992, Bård ‘Faust’ Eithun (Emperor) esfaqueou até a morte um homossexual chamado Magne Andreassen numa floresta perto de Lillehammer. Em 1994, ele foi sentenciado a cumprir 14 anos na prisão, porém foi liberado em 2003.
O Inner Circle foi totalmente exposto na mídia em 1993 quando Varg Vikernes assassinou Euronymous em sua casa com 23 golpes de faca na cabeça e nas costas. Vikernes foi preso em 19 de agosto de 1993 em Bergen e recebeu liberdade condicional somente em maio de 2009.
Com a morte de Euronymous e a prisão de vários membros do Inner Circle, o movimento chegou a seu fim. Mesmo assim, as bandas do Black Metal norueguês continuaram suas carreiras, destaque para o disco “De Mysteriis Dom Sathanas” do Mayhem, que foi lançado em 1994 contendo gravações tanto de Euronymous quanto de Varg Vikernes que foi o baixista do Mayhem neste álbum.

A política do Black Metal norueguês
Um tema pouco mencionando em matérias nacionais relacionado ao Black Metal norueguês (e que também ficou de fora do filme “Lords of Chaos”), é o fato da ligação de alguns membros do Inner Circle com a extrema direita nazista, em especial vinda de Varg Vikernes. O ambiente de racismo e misoginia existente no Inner Circle eram comumente abraçado abertamente por vários músicos e bandas da cena.

Diferente do Brasil, a Noruega é um pais politizado e seu povo tem ciência das facetas econômicas e históricas de seu governo, bem como as do mundo. Portanto, claro que muitos destes extremistas do Inner Circle sabiam muito bem o que defendiam, um exemplo simples podemos encontrar na contracapa do álbum “Transilvanian Hunger” do Darkthrone (que tem participação de Varg Vikernes) que traz estampado a frase: “Norsk Arisk Black Metal” (Black Metal ariano norueguês).
Porém, nem todos os membros do Inner Circle seguiam essa extrema direita, Euronymous, nome maior do Inner Circle e figura fundamental para o Black Metal como explicado anteriormente, era Comunista!
Euronymous era um estudioso do comunismo e grande admirador de personalidades como Lenin e Stalin. Fez parte durante um tempo da ala juvenil do partido vermelho da Noruega, período que ajudou a moldar sua personalidade discursiva, transformando o guitarrista numa pessoa carismática e eloquente, amado por uns e odiado por outros.
Suas convicções socialistas chegaram inclusive a fazer parte do modo como administrava seu selo. A Deathlike Silence Productions tinha como objetivo ser uma espécie de “multinacional underground socialista”. Em várias cartas trocadas com seus contatos mundo a fora, Euronymous deixava claro a importância da Deathlike Silence Productions trabalhar favorecendo os músicos, levando ao pé da letra o lema socialista que diz “Se a classe operária tudo produz, a ela tudo pertence”. Euronymous também costumava colocar no meio de sua assinatura o desenho da foice e do martelo, símbolo da união dos trabalhadores comunistas.
A liderança de Euronymous dentro do Inner Circle começou a ser desfeita com a entrada de Varg Vikernes no grupo. O inner Circle por fim acabou se dividido em dois e cada um dos principais líderes defendiam acirradamente seus ideais. Euronymous liderava o Inner Circle comunista e satanista, já Varg liderava o Inner Circle nazista e pagão.
Tenho convicção que essa discordância política e ideológica foi sim um dos motivos pelo qual Varg tenha tirado a vida de Euronymous. Alguns especulam que o assassinato foi resultado de uma disputa contratual/financeira sobre as gravações do Burzum, Varg diz ter atacado Euronymous apenas para se defender, pois tinha sido ameaçado anteriormente. Eu fico com duas destas versões, a política e contratual/financeira.
 O fato é que ambos, tanto Varg quanto Euronymous, eram totalitaristas extremistas, portanto, tanto faz posicionamento político defendido por eles (esquerda ou direita), pois o que difere um totalitarista de esquerda ou de direita é a filosofia base que vai formar seu pensamento político e econômico, neste caso capitalismo, socialismo e comunismo.
O que não podemos deixar de lado é essa conivência extremista existente no movimento. Essas posturas tem de ser sim denunciadas e debatidas ao ponto de entender o papel que elas tem inclusive dentro da construção do próprio Black Metal. Tentar entender esse “éthos” do estilo é de suma importância para que possamos compreender como um movimento que busca trevas, desespero, extremismos e desesperança, consegue atrair tantos jovens. Talvez essa questão política seja um dos principais pontos, porém, creio que somente conseguiremos claras respostas se observamos esses acontecimentos pela ótica do próprio Black Metal.  

terça-feira, 5 de março de 2019

Europe: Carrie vs Carrie a estranha


Sendo a arte uma atividade humana diretamente ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada por meio de uma grande variedade de linguagens (como arquitetura, desenho, escultura, pintura, escrita, música, dança, teatro e cinema), pode muito bem ocasionalmente gerar obras distintas que acabam encaixando-se perfeitamente no enredo de outra. Esse é o caso de duas grandes obras, uma da literatura e outra da música, que mesmo em anos diferentes e com temas também diferentes, acabam soando como sendo parte uma da outra.  Estou falando da obra literária de Stephen King “Carrie a estranha” de 1974 e a canção “Carrie” da banda Sueca Europe lançada no álbum The Final Countdown de 1986.
É nítido que a faixa do Europe composta por Joey Tempest e Mic Michaeli é uma canção que narra o termino de um relacionamento. Segundo algumas fontes a letra foi inspirada numa namorada de Joey Tempest que acaba terminando com o vocalista devido uma traição do mesmo. Diferente da canção, o clássico de Stephen King traz a história da jovem Carietta White (Carrie) que é caracterizada como sendo uma menina insignificante, introspectiva, atrasada, pouco instruída, gorda e com o rosto repleto de espinhas.
Filha de uma fanática religiosa, Carrie é muito hostilizada pelas suas companheiras de classe, no qual uma delas (Sue Snell) acaba se arrependendo das “brincadeiras” de mal gosto e como forma de desculpas pede para seu namorado (Tommy) levar Carrie ao baile de formatura e dar a garota um pouco de felicidade e popularidade. O problema é que Chris Hargensen, uma aluna proibida de ir ao baile, prepara uma chocante armadilha para ridicularizar Carrie na frente da escola, o que ninguém imaginava era que Carrie detinha poderes paranormais (telecinesia) e acaba ceifando a vida de quase todos no local.
“Carrie a estranha” é um clássico que aconselho que vocês desfrutem, portanto privei no pequeno resumo acima dar detalhes chave da obra. Vale lembrar que existem alguns filmes baseados neste best seller, que aliás é o primeiro de Stephen King a ganhar uma adaptação para o cinema. O primeiro deles é o homônimo “Carrie a estranha” de 1976, o segundo é uma fajuta sequencia lançada em 1999 (que nada tem de ligação com o livro) chamado “A maldição de Carrie”. Em 2002 uma versão muito fraca foi lançada para a TV com o nome de “Carrie”, já em 2013 um remake atualizando a obra de King para o século XXI foi feito e vale muito a pena ser conferido.
Voltando ao ponto central desta matéria, onde obras distintas acabam se entrelaçando, vou mostrar o exato ponto onde a canção do Europe se encaixa na obra de King:
Ouvindo com mais detalhes a canção, percebemos que ela não se trata de uma balada melosa ou mesmo romântica no sentido clássico do estilo, ela soa melancólica, triste e arrependida. Sua estrutura que progride junto aos acordes de piano representa uma pessoa que lamenta por algo, porém não pode desfazer o acontecido, típico de traição, porém se formos ouvir a canção como sendo Sue Snell da obra de King falando com Carrie após a morte da mesma a música parece ter um outro sentido.
Na música Carrie parece que morreu (assim como a Carrie do livro) e ele nunca mais vai poder vê-la novamente! A não ser quando as luzes se apagarem, ou seja nos sonhos, ou em sua própria morte!
No refrão podemos ver o cantor chamar sua ex de AMIGA, ou será Sue consolando sua amiga Carrie? Acompanhe:
“Carrie! Carrie!
As coisas mudaram, minha amiga
Carrie! Carrie!
Talvez nos encontremos novamente em algum lugar, novamente”
Mesmo se tratando de jovens a obra dá a entender que Sue é madura pra sua idade, inclusive no filme a mãe diz que sua filha é uma boa menina. Se você acompanhou a obra de Stephen King sabe do arrependimento de Sue e no quanto ela queria corrigir as coisas com Carrie, porém nada pode ser feito:
“Eu leio sua mente,
Sem intenção de ser cruel
Eu queria poder explicar,
Isto leva tempo com muita paciência”

Como dito antes, sabemos que a faixa foi inspirada numa namorada de Joey Tempest, porém, quem sabe essa coincidência artística não seja vazia, e inconscientemente Joey Tempest e Mic Michaeli estiveram por detrás dos olhos arrependidos de Sue Snell na composição de Carrie. De qualquer forma fica ai a curiosidade e a ligação destas duas grandes obras, na qual só teremos certeza de suas reais linhas “Quando as luzes se apagarem”.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Heavy Metal: “Culturas negra e indígena no heavy metal nacional”


A riqueza artística e expressiva figurada através do Heavy Metal consegue unir de forma criativa, música, literatura, poesias, filosofias e ciência. O estilo várias vezes trouxe aos palcos fatos históricos e acontecimentos importantes da humanidade, transformando seus discos e shows em verdadeiras aulas. Um professor que levou essa ideia a sério foi o educador Willian Castilho de Moraes com seu trabalho “Culturas negra e indígena no heavy metal nacional” chegando a ter seu nome na academia pindamonhangabense de letras.
Willian Castilho de Moraes é professor graduado em história, músico e escritor, tendo dois livros publicados (Mãos Machucadas e Jaula Invisível). O trabalho, “Culturas negra e indígena no heavy metal nacional”, explora a importância da influência da música brasileira para a renovação do Heavy Metal mundial, usando como ponto de partida as composições das bandas Angra e Sepultura, já que as mesmas utilizam elementos musicais de origem nacional, tanto na incorporação de instrumentos quanto melodicamente, sem contar a temática das letras que explora a história dos povos indígenas e africanos.
Castilho diserta sobre a importância que os álbuns “Roots” do Sepultura e “Holy Land” do Angra tiveram para a valorização da cultura Brasileira, visto que ambos chegaram a cruzar o globo. Para isso (como um bom professor de história) Castilho narra o conceito dos álbuns e avalia historicamente seu conteúdo, “Roots” por exemplo traz letras de protesto direcionada a miscigenação brasileira, os primeiros habitantes do Brasil e o processo civilizatório imposto pelos portugueses sobre as tribos indígenas. Já “Holy Land” (apesar de seguir a mesma linha crítica de Roots) foca mais no Brasil em 1500, quando foi descoberto pelos portugueses que encontraram um povo nativo e “estranho” ao chegarem em terras tupiniquins.

“As bandas inovaram e criaram um heavy metal que só poderia ser produzido no Brasil. Roots e Holy Land marcaram o cenário musical nacional e internacional e se tornaram uma enorme influência para as bandas do estilo. As canções retratam nossas raízes sangrentas, marcadas pelo processo civilizatório dos europeus, ao imporem sua cultura aos chamados “selvagens” e escravizarem os negros da África, proibindo-os de manifestar sua cultura. As letras das canções retratam as origens do Brasil, valorizam nossa cultura e fazem uma homenagem àqueles que durante muito tempo foram excluídos, mas que participam de modo radical na formação do povo brasileiro”. (Trecho do trabalho)


Tive a oportunidade de conversar com Willian Castilho de Moraes sobre seu trabalho e a importância do mesmo no meio acadêmico, confiram:
Roadie Metal: Visto que um dos objetivos do trabalho é promover a valorização da cultura brasileira, destacando dois ícones do Heavy Metal nacional como propagadores dessa ideia (Sepultura e Angra), como você observa o subgênero “Metal Nativo” que se dedica exclusivamente a esse objetivo?
Willian Castilho de Moraes: Autêntico e inovador. Depois de Roots e Holy Land o Rock pesado brasileiro “descobriu” a verdadeira música brasileira, várias bandas começaram a adicionar elementos nativos ao seu som. Tanto Angra e Sepultura já tinham feito algo parecido antes dos dois álbuns, Never Understand (Angels Cry) do Angra é incrível e a Bateria de escola de samba em Refuse/Resist (Chaos A.D.) do Sepultura levanta até os mortos. O Metal é bem caracterizado pelas culturas mitológicas como a celta, grega e a nórdica, então por que não caracterizar a cultura brasileira? O Heavy Metal (assim como o Rock no geral) encaixa muito bem com outros estilos musicais como a música Erudita e Barroca. Outros elementos musicais como a música celta também já foi associada ao Metal, agora percussão e ritmos brasileiros foi um divisor de águas na história do Rock pesado. Essa fusão musical criou um estilo de Heavy Metal experimental sem ser considerado modelo de cópia. Quebrou barreiras e preconceitos, foi sucesso mundial. A Europa, EUA e Japão “se ajoelharam” perante ao Metal Brasileiro. As bandas criaram um estilo tipicamente brasileiro, acredito que a América Latina no geral é rica em ritmos dançantes feitos à base de instrumentos de percussão e nós brasileiros fazemos parte dessa estrutura musical a percussão é algo característico do nosso país. É como Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral diziam: “Nós brasileiros somos capazes de deglutir as formas importadas e misturar com a cultura nacional, dessa fusão será criado algo novo e experimental sem cair no modelo de Cópia”. Ao experimentar a fusão do Heavy Metal com elementos nativos, Angra e Sepultura acabaram por criar, sem exageros, uma nova linha de música brasileira, miscigenada, o que é próprio das características da cultura brasileira. A influência foi mundial, bandas brasileiras e internacionais incorporaram a percussão ao seu som. Hoje já temos bandas que podem ser consideradas como “Metal Nativo” como o Arandu Arakuaa uma banda ousada e original.
Roadie Metal: No trabalho você faz justas críticas a mídia Brasileira em relação a marginalização do Heavy Metal nacional, destacando inclusive a dificuldade que as bandas tem em se projetar artisticamente. Como está sendo divulgar sua tese (e estas bandas) em faculdades onde muitas pessoas desconhecem o estilo?
Willian Castilho de Moraes: Um desafio. As pessoas ficam super curiosas para saber do que se trata. Os Headbangers agradecem a iniciativa da divulgação do estilo. Existe um folclore muito grande em cima do Metal, o que mais me chamou a atenção nas palestras (Faculdades e escolas) foi a associação que as pessoas tem do estilo com o Tinhoso. Para muitas pessoas o Heavy Metal era algo criado para o “mal” e foi muito glamoroso para mim fazer cair por terra esse tipo de preconceito. Muita gente me dizia que ia chegar em casa e procurar bandas de Metal no You Tube. O prestígio de se poder falar de Heavy Metal nas escolas e faculdades me deixou perplexo, pois gerava muita curiosidade nas pessoas e no final elas vinham me agradecer por terem aprendido sobre Rock pesado.
Roadie Metal: O trabalho foi premiado pela Universidade Unisal com o prêmio José Luiz Pasin. Como foi a premiação? E como o mesmo foi recebido pela cena Heavy Metal de sua cidade?
Willian Castilho de Moraes: Tenha muita consideração pela Unisal, eles incentivaram de uma maneira fantástica a construção desse trabalho. Para a universidade foi inovador, algo totalmente novo, pois até a minha turma ninguém tinha falado de cultura brasileira e Heavy Metal na história da universidade, pelo menos até onde eu e meus professores sabemos. Foi um trabalho ousado. As apresentações na Unisal geravam debates sadios e interessantes. Na minha cidade na área educacional e cultural foi um espetáculo. Chegamos a apresentar o trabalho na Academia Pindamonhangabense de Letras. Falar sobre Rock pesado na Academia de Letras foi Histórico. Fizemos história, o apoio de professores e dos acadêmicos para a apresentação na Academia e nas escolas de Pinda foi fundamental. O trabalho também foi apresentado em outras universidades da região como UNESP (Guaratinguetá) e Dehoniana (Taubaté). Infelizmente em algumas apresentações o número de “camisetas pretas” era pouco, mas quem sabe eles apareçam nas próximas apresentações, pois o meu objetivo é continuar apresentando a obra.
Roadie Metal: O trabalho cita a origem do Heavy Metal destacando cronologicamente algumas bandas e a criação dos subgêneros, até tornar-se mundial. Atualmente (a exemplo do Sepultura e Angra) quais bandas internacionais você julga ter ajudado nesta globalização usando ritmos e instrumentos típicos de seu país?
Willian Castilho de Moraes: É difícil citar todos os artistas. Sempre acabamos esquecendo um ou outro. Mas para mim quem foi influenciado por Roots e acabou incorporando elementos de percussão em seu som foi o gigante do metal Slipknot. Eles são um dos principais divulgadores do metal com percussão. A banda Korn também adicionou elementos de percussão ao seu som. A referência do Hard Rock mundial a banda alemã Scorpions no seu DVD Live in the Jungle gravado no Brasil incorporou instrumentos típicos brasileiros ao seu som. Se pesquisarmos encontraremos muito mais.
Roadie Metal: Muito obrigado pelas respostas e parabéns pelo trabalho e prêmio. Deixo aqui um espaço para suas considerações e indicações, Abraço!!
Willian Castilho de Moraes: Agradeço a todos de coração pela força e apoio no processo de criação e divulgação do trabalho. É muito prazeroso poder falar de Rock pesado nas escolas e universidades. Sem sombra de dúvidas estamos divulgando o Metal de alguma maneira na região do Vale do Paraíba, fiquei muito honrado em ser entrevistado por vocês fica aqui o meu agradecimento. Para os fãs de música deixo um recado de que devemos acabar com a cultura da “herança colonial” que o Brasil tem, o que seria isso, na época do Brasil Colônia acreditava-se que tudo o que vinha da Metrópole era melhor. Hoje os brasileiros acreditam que tudo o que é importado é melhor, se vem do exterior é melhor do que o nosso, esse pensamento tem que cair por terra. Nem sempre tudo o que vem de fora é melhor, nenhuma cultura está só no mundo, o próprio Rock n’ Roll é um estilo de música importado, que nós Rockeiros amamos. Amo de paixão muito da cultura internacional, mas acredito que também devemos valorizar a nossa. A cultura brasileira é rica e muitas vezes até melhor do que a do exterior, é preciso valorizar mais a cultura nacional. O Brasil possui bandas excelentes vale a pena pesquisar.
É inegável a importância que estes dois álbuns trouxeram para o Heavy Metal nacional, tanto por sua riqueza artística como histórica. Trabalhos acadêmicos como esse são extremamente importantes pois consegue atingir um público que muitas vezes desconhecem esse estilo que tanto amamos.
Link para o pdf com o trabalho completo: “Culturas negra e indígena no heavy metal nacional”

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Curiosidades: Chico Buarque e o Rock/Metal



Uma parcela dos fãs mais “radicais” de Rock/Metal tem um certo preconceito com estilos fora de sua cadeia de ideias, principalmente quando este estilo está ligado a música “popular” de seu país. Bandas como Sepultura e Angra, na contramão deste pensamento, desafiaram essa ideia gravando temas que vão desde Samba a MPB, provando que suas influencias não estão presas a uma regra pré estabelecida, presenteando o estilo com obras impares.
Opiniões e críticas à parte, trarei hoje pra vocês cinco releituras “pesadas” do ícone da MPB Chico Buarque.
Imago Mortis
A Imago Mortis em seu disco “Images From The Shady Gallery” (produzido pela lenda Carlos Lopes da Dorsal Atlântica) de 1998, traz uma excelente versão da música “Deus Lhe Pague” composta e gravada originalmente por Chico Buarque em seu disco “Construção” de 1971.

Golpe de Estado
O quinto álbum de estúdio da banda de hard rock Golpe de Estado, “Zumbi” (1994), traz a canção “Hino de Duran”. A faixa composta por Chico Buarque pode ser encontrada na compilação “Ópera Do Malandro” (Peça Teatral) gravado em 1979 que retrata a repressão cultural dos tempos de ditadura militar. A versão do Golpe de estado, diferente da original, traz alguns versos a mais ao final da canção.

Pitty
A canção “Cálice” revisitada por Pitty em 2011, foi escrita e originalmente interpretada pelos compositores brasileiros Chico Buarque e Gilberto Gil em 1973, porém, devido a censura da ditadura militar só foi lançada em 1978. A pesada versão da Pitty faz parte da trilha sonora da telenovela “Amor e Revolução”.

Distúrbio Mental
Assumidamente anarquistas e contrários ao moralismo barato, a banda de Punk/ Hardcore Distúrbio Mental de Ribeirão Preto – SP também regravou a clássica “Deus lhe Pague”.

Atila.K.W.
O ainda desconhecido Átila.K.W fez várias releituras “rock” de Chico Buarque, uma de destaque é a fenomenal “Geni e o Zepelim” da Opera do Malandro. A faixa foi muito bem expressada por Atila K.W que conseguiu um ótimo resultado climático e técnico, digno desta icônica canção que nos faz questionar  a moral da sociedade.

Se gostou de ouvir as canções de Chico Buarque expressadas através da pegada contagiante do Rock, existe também um ótimo disco de Sergio Vid intitulado “Rock’n’ Chico” que traz ótimas versões para clássicos da MPB como “Mulheres de Atenas” e “Olhos nos Olhos”.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Sepultura: Anthony Burgess e o disco A-Lex


Variadas expressões artísticas são exprimidas com mãos caprichosas e muitas vezes contestadoras, obras que nos fazem questionar o mundo e observar o mesmo através de uma perspectiva, digamos, diferenciada.
O Heavy Metal sempre buscou esse verniz, inclusive usando obras consagradas para exemplificar sua postura. Um exemplo é o disco A-Lex do Sepultura (2009) que narra a história de “Laranja Mecânica” (A Clockwork Orange, 1962) escrita por Anthony Burgess.
Ao lado de obras como: “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, “1984” de George Orwell e “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, “Laranja Mecânica” e considerado um dos maiores clássicos da literatura distópica, sendo este o livro mais conhecido e mencionado de Burgess, tanto que em 26 de abril de 1972 ganhou uma incrível versão para o cinema, adaptado, produzido e dirigido por Stanley Kubrick.
O filme foi tão significativo e forte que percorreu o globo, tornando-se referência no cinema mundial. A película, mesmo tendo alguns detalhes diferente do livro, é bem fiel ao enredo original, conseguindo passar com bastante honestidade o sentimento expressado pela escrita de Burgess.

A história de “Laranja Mecânica”, tanto no livro quanto no filme, é narrada em primeira pessoa pelo protagonista e anti-herói Alex de 15 anos de idade. Admirador de música clássica, principalmente Ludwig van Beethoven, Alex relata sua trajetória como líder de uma gangue de delinquentes que roubam, estupram e assassinam, até o cume de sua prisão e participação (como cobaia) num experimento chamado “Tratamento Ludovico”, criado pelo governo com o intuito de refrear os impulsos destrutivos dos delinquentes.

O Sepultura trouxe um trabalho pesado e cadenciado, dividindo o mesmo em quatro capítulos (de ‘Alex I’ a ‘Alex IV’) todas com uma breve introdução climática. Os três primeiros falam do enredo conhecido na adaptação de Kubrick, já o quarto (e último) apresenta um desfecho que não foi mostrado no filme, onde Alex retorna à sociedade, reencontra seus velhos amigos, casa-se e começa uma família segundo sua própria escolha e vontade, contrariando o que o governo tinha estabelecido através do “Tratamento Ludovico”.
O grupo conseguiu com muita maestria colocar o ouvinte dentro da obra de Burgess, usando para isso elementos típicos do livro, como por exemplo a inclusão do dialeto “Nadsat” criado por Burgess e usado por Alex e seus comparsas durante toda sua jornada. Um exemplo é a faixa “Moloko Mesto” (lugar do leite), Moloko é uma bebida feita de leite e entorpecentes que era usado como combustível para o desejo de violência dos Druguis (amigos).

No filme Alex se mostra admirador de Ludwig Van Beethoven, Já no livro, o protagonista ama música clássica e erudita num geral, inclusive dedicando paixão por Mozart e Bach. Anthony Burgess também era compositor, portanto sabia muito bem expressar o que sentia diante de músicas complexas, essa sensibilidade pode ser notada em uma de suas composições chamada “Blooms of Dublin”.

A parte musical existente na trama também foi retratada com bastante capricho pelo Sepultura em seu disco. A faixa “Ludwig Van” tem como base a Sinfonia nº 9 de Beethoven, misturando o som da orquestra com o peso típico da banda, representando (mesmo que sem intenção) um trecho mediúnico e visionário do livro, onde Alex, num momento de êxtase musical, em meio ao concerto para violino do American Geoffrey Plautus, praticamente dá origem ao termo “Heavy Metal”:
 “Ah, era a maravilha das maravilhas. E então, um pássaro feito do mais raro HEAVENMETAL, ou tipo assim vinho prateado fluindo numa espaçonave – a gravidade agora não fazia o menor sentido – veio o solo de violino acima de todas as outras cordas, e essas cordas eram como uma gaiola de seda ao redor da minha cama.” (Burgess, Anthony. Laranja Mecânica pg.35)

O Sepultura, assim como Kubrick, conseguiu trazer para seu trabalho o clima pesado e crítico do livro, onde momentos filosóficos são apresentados junto a uma brutalidade ríspida e crua. A ideia simbólica da “Laranja Mecânica”, que tem a aparência de um organismo adorável, com cor e suco, mas que na realidade é um brinquedo mecânico para ser manipulado para o bem ou para o mal, foi muito bem retratado através das 18 faixas de A-lex.
A exemplo do filme, onde Kubrick (mesmo que de improviso) compôs a famosa cena do estupro, onde Alex canta e dança “Singin’ in the Rain”, o Sepultura trouxe para seu trabalho uma ideia criativa e diferenciada em relação ao título do disco, fazendo um trocadilho com o nome de Alex, separando o “A” do “Lex” para formar a frase em latim “Sem Lei”.

Se nunca leu, assistiu ou ouviu falar de “Laranja Mecânica”, corra atrás desta obra e use como trilha sonora o A-Lex do Sepultura, pois o álbum conseguiu transmitir com bastante expressividade a ideia principal do livro, onde cada indivíduo deve ser livre dentro si, e dono de sua própria vontade e escolha, pois vale muito mais a pena ser “mau” por escolha, do que “bonzinho” por obrigação.