segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Resenha: Project Black Pantera – Project Black Pantera (2015)



A história da humanidade é coberta por inúmeros atos cruéis e preconceituosos, fatos estes que posso enumerar facilmente visto nossa vasta ignorância e preconceito. Inquisição, guerras mundiais, corrupção e escravidão mancham de sangue nossos livros de história, transformando nossa raça em uma das mais violentas dentre os animais.
A música, em especial o Rock/Metal, sempre foi libertária e contrária a estes tipos de opressões. Desde o período clássico, a música vem expressando nossos descontentamentos, seja eles a favor ou contra o ponto central da questão. O fato é que não tem diferença entre Mozart e Steve Harris, visto que ambos pavimentaram suas músicas através do concreto cultural e expressivo de nossa humanidade.
Formada em 2014, a banda Project Black Pantera, provinda de Uberaba (Minas Gerais), também escreve suas músicas com esse lado expressivo de nossa história, tanto que o nome da banda tem ligação cultural com o partido dos Panteras Negras.
O partido dos Panteras Negras, que foi fundado em 1966 na cidade de Oakland, Califórnia, foi uma organização política extraparlamentar socialista revolucionária norte-americana ligada ao nacionalismo negro. O objetivo do grupo, no princípio, era patrulhar guetos negros para proteger a população dos atos de brutalidade por parte da polícia, no qual eles acusavam de ser racista. Após o crescimento do grupo, os Panteras Negras adotaram uma filosofia revolucionária e marxista que defendia o armamento dos negros, além de exigir a isenção dos impostos e de todas as sanções da então chamada “América Branca”. Lutavam também pela libertação de todos os negros da cadeia, e tentavam forçar o governo a pagar indenizações por “séculos de exploração branca”.

O debut autointitulado do power trio é simplesmente espetacular, e assim como o programa dos dez pontos dos Panteras Negras, onde o grupo listava pontos que desejavam e acreditavam, o disco veio com exatas 10 faixas, mais dois bônus.
O álbum abre com um soco na cara chamado “Boto Pra Fuder”. A canção é direta e pesada. O baixo distorcido faz uma ótima base para o canto que arrebenta. Tanto a “Boto Pra Foder” quanto a segunda faixa, “Ratatatá” (que por sinal tem ótimos slaps), são de cunho viciantes e empolgantes.
Todas as faixas do disco são de um estilo muito particular, tanto que não consigo rotular o trabalho do Project Black Pantera – somente que é uma variação de Thrash, Hardcore, Punk e Crossover. Mesmo cantado em português, a banda tem um leque de críticas favoráveis em países como França e Estados Unidos, mostrando a força artística do grupo.
A parte gráfica e física do CD são bem criativas. A logomarca, composta por Rauy Cardoso, junto das imagens feitas por Andreza Rodrigues, são marcantes e dão seriedade ao trabalho. Uma foto que me chamou a atenção é uma onde os membros estão de punhos erguidos. Esse gesto (raised fist) é um símbolo dos Panteras Negras. Na Olimpíada da Cidade do México em 1968, Tommie Smith e John Carlos, atletas afro-americanos, fizeram essa saudação durante a cerimônia de premiação da modalidade, após vencerem os 200 metros rasos, por julgar o ato dos atletas como sendo uma manifestação política, ambos foram banidos dos Jogos pelo Comitê Olímpico Internacional.

O álbum segue com a monstruosa instrumental “Godzilla”, esta que abre caminho para uma das melhores faixas do disco, “Eu Sei”. Sendo intencional ou não, a letra de “Eu Sei” retrata um pouco o pensamento da ala mais radical do movimento dos Panteras Negras, que defendia a luta armada e pregava que o governo branco omitia a verdade e vendia uma falsa visão de paz e igualdade:
“Omitem a verdade, eu sei, paz e igualdade, pra quem? Quer cair pra dentro, então vem!”
A ferocidade continua com a faixa “Rede Social”, onde a banda destila críticas a indivíduos que abusam das redes sociais de forma politicamente incorreta. A canção tem um groove marcante e pavimenta o caminho para a música mais Hardcore do disco, “Abre A Roda e Senta O Pé”, que é um convite irrecusável ao moshpit; destaque para o solo de baixo executado com muita pegada por Chaene da Gama ao 1:48 minuto.
“Execução Na Av. 38” e “Manifestação” são dignas de aplausos, o Thrash/Crossover com pitadas de Hardcore são muito bem amalgamados, mostrando toda a capacidade inovadora do grupo. Nos bônus, podemos encontrar uma versão em inglês para “Manifestação” e uma mixagem diferente para a “Execução Na Av. 38” feita pelo site norte-americano Afropunk, contendo a participação do rapper J. Cole.
Simplesmente matador esse primeiro trabalho do Project Black Pantera! Músicas agressivas e bem compostas junto ao verniz histórico dos Panteras Negras faz deste debut uma obra de arte. Para encerrar, vou deixar aqui as frases finais recitadas por Charles Gama na música “Escravos”:

“Todos nós nascemos livres e assim tem de ser,
Mas a prisão ainda existe, até um cego pode ver
Todos nós somos iguais, somos todos filhos de Deus
Tanta guerra não traz paz, a cor do teu sangue é igual ao meu.”

Integrantes:
Charles Gama (guitarra/vocal);
Chaene da Gama (baixo/vocal);
Rodrigo Pancho (bateria).
Faixas:
01 – Boto Pra Fuder
02 – Ratatatá
03 – Godzilla
04 – Eu Sei
05 – Rede Social
06 – Abre A Roda e Senta O Pé
07 – Execução Na Av. 38
08 – Manifestação
09 – Ressurreição
10 – Escravos
Bônus:
11 – Manifastation
12 – Execução Na Av. 38 feat. J. Cole (Mix By Afropunk)


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Saxon: o blackout que rendeu um clássico


Um dos maiores clássicos da carreira do Saxon, “747 (Strangers In The Night)” é uma das mais fortes e significativas composições do álbum “Wheels of Steel”, lançado em 5 de maio de 1980. A faixa, que além de ser inspirada e técnica, conta ainda a real história ocorrida durante um blackout que assolou os EUA e Canadá.
No dia 9 de novembro de 1965, numa terça-feira, uma significativa interrupção no fornecimento de eletricidade em Ontário no Canadá e Connecticut, Massachusetts, Nova Hampshire, Rhode Island, Vermont, Nova York e Nova Jersey nos Estados Unidos deixou cerca de 30 milhões de pessoas e 80 mil milhas quadradas (207 mil km²) sem energia elétrica.
No mês de novembro, as noites frias são mais severas nestes países, e comumente o uso de aquecedores, iluminação e eletrodomésticos dobram, porém naquela semana acabou-se consumindo mais energia do que o previsto. As equipes de manutenção elétrica não haviam liberado energia suficiente para a população, empurrando o sistema elétrico para perto de sua capacidade máxima, fazendo com que as chaves de segurança da estação se desligasse por sobrecarga.

O apagão, que durou cerca de 12 horas, afetou vários serviços, incluindo estações de rádio e TV. O blackout ainda favoreceu criminosos que saquearam e cometeram crimes variados. Porém um drama pouco mencionado é referente a um voo da Scandinavian Airlines, e é através deste acontecimento que a canção “747 (Strangers In The Night)” desdobra-se.
A faixa menciona o voo “Scandinavian 101” no entanto, o fato ocorreu com o voo 911 da Scandinavian Airlines. Devido ao apagão, o aeroporto “John F. Kennedy” (Nova Iorque), ficou totalmente invisível ao piloto, impossibilitando o avião de pousar. Sendo assim, o 747 voou até que seus tanques reservas ficassem abaixo do nível de segurança, transformando seus tripulantes em verdadeiros “estranhos na noite”. O fato causou uma grande revisão na segurança das aeronaves referente aos tanques de combustíveis reserva, já que nestas condições uma queda seria inevitável.

“747 (Strangers In The Night)” é um clássico absoluto do grupo, tanto que até hoje a canção faz parte do repertorio da banda em seus shows. Além de contar com bastante expressividade o ocorrido com o Scandinavian Airlines, a faixa ainda tem um refrão climático e instrumentais inspirados, figurando-se numa das músicas  mais marcantes na história do Saxon.






quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Rush: a relação entre “Tom Sawyer” e a obra de Mark Twain



Lançado em 7 de fevereiro de 1981, o álbum “Moving Pictures” do Rush trouxe ao mundo um dos seus maiores clássicos, a canção “Tom Sawyer”. A faixa em questão ajudou e muito o álbum a ser um dos mais vendidos do grupo, tanto que rendeu a banda o disco de platina quádruplo.
A letra de “Tom Sawyer” traz o retrato de um rebelde dos dias modernos que paira sobre o mundo, porem com ampla visão e senso de propósito. Segundo o baterista Neil Peart, a letra fala sobre como reconciliar o garoto e o homem dentro do indivíduo, além de ressaltar a diferença entre o que as pessoas realmente são e o que os outros apenas percebem que elas sejam. A analogia num todo é feita através da personalidade simbólica de “Tom Sawyer”, personagem famoso do escritor Mark Twain em seu livro “As Aventuras de Tom Sawyer”.
Mark Twain é considerado o pai da literatura americana moderna e deu vida a dois dos mais importantes e carismáticos personagens americanos de livros infantis, Huckleberry Finn e seu amigo Tom Sawyer.
Publicado em 1876, “As Aventuras de Tom Sawyer” traz as peripécias do garoto Tom que vive com sua tia Polly, seu irmão Sidney e a sua prima (filha da sua tia), chamada Mary numa pequena cidade nas margens do rio Mississippi, nos Estados Unidos. Junto a seu melhor amigo Huckleberry Finn, Tom se mete nas mais variadas aventuras, encrencas e descobertas juvenis, todas através do prisma cultural vigente nos Estados Unidos do século XIX, onde a religiosidade, pragmatismos, preconceitos e escravidão eram expostos sem pautas.

Muitos definem a personalidade de Tom Sawyer como sendo de um rebelde, porém ele se porta apenas com o um garoto esperto, inteligente e muitas vezes mal compreendido, tanto que durante o decorrer de suas histórias percebemos o quão grande é seu coração, o que inclusive acaba lhe transformando num verdadeiro herói local. Vale lembrar que seu amigo Huckleberry Finn foi protagonista de um dos mais controversos livros de Mark Twain, chamado “As Aventuras de Huckleberry Finn”, publicado em 1884. A obra é considerada uma continuação de “As Aventuras de Tom Sawyer”, e até hoje muitos julgam o trabalho como sendo racista devido ao tratamento que Jim, um escravo, é o mais ignorante de todo o livro, recebe. O enredo traz o garoto Huckleberry “ajudando” o escravo Jim a fugir numa balsa através do rio Mississippi.
Numa apresentação do Rush, os personagens do desenho South Park aparecem no telão tocando “Tom Sawyer”, só que com a letra errada, fazendo referência a Huckleberry Finn e Jim, ao ser alertado do erro, a bandinha faz a contagem para recomeçar a canção, porém quem toca desta vez é o Rush.
Acompanhe o vídeo:

“Tom Sawyer” é uma canção que transpassa o limite da técnica e mostra com genialidade como expressões artísticas diferentes podem sim ser mescladas e divulgadas com uma roupagem diferente. Se nunca leu as “As Aventuras de Tom Sawyer” vale muito a pena, existe também um ótimo filme de mesmo nome que mostra com bastante fidelidade o enredo do livro.
Assista o filme completo no YouTube:



segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Iron Maiden: análise temática do álbum “The Book of Souls” (Parte 2)


Dando continuidade à análise temática do álbum “The Book of Souls”, do Iron Maiden, vamos visitar agora o tema faixa a faixa do segundo disco desta magnífica obra de arte.

Death Or Glory
Escrita por Adrian Smith e Bruce Dickinson, “Death Or Glory” abre o segundo disco do álbum trazendo uma incrível homenagem ao piloto alemão Manfred Von Richthofen.

Nascido em 2 de maio de 1892 na cidade de Breslau (Breslávia), na Alemanha (atualmente Wrocław, Polônia), Richthofen foi um notório piloto de caça que atuou durante a segunda guerra mundial, chegando a somar a imbatível marca de oitenta vitórias. Richthofen pilotava um triplano vermelho (Fokker DR.1), e por deter o título de “Freiherr” (“Senhor Livre”), uma posição nobre traduzida como “barão”, ganhou o significativo apelido de “Barão Vermelho”, com o qual ficou mundialmente conhecido.

A técnica de combate do Barão era incrível, Richthofen posicionava seu avião entre o oponente e os raios solares, dificultando assim a visibilidade de seu inimigo e facilitando seu disparo fatal. Orgulhoso, o piloto descrevia seus movimentos da seguinte forma: “Meu avião escala os ares como um macaco e gira como um diabo”. Na letra de Bruce Dickinson essa técnica, e afirmação, são descritas no pré-refão da canção: “Turn like the devil, shoot straight from the sun / Climb like a monkey out of hell where I belong” (Giro como um diabo, disparo em linha reta para sol/ Escalo como um macaco para fora do inferno onde eu pertenço).
Recentemente, a banda lançou um excelente vídeo ao vivo para a música que traz uma divertida “imitação” de Bruce Dickinson, que gesticula junto ao público como sendo um macaco, descrevendo de forma criativa e caricata a técnica avassaladora do Barão Vermelho.
Confira o lindo vídeo da canção:

Logo no início da faixa a letra narra: “Levo uma bala em meu cérebro, dentro de mim, eu sou o rei da dor” (00:47). Essa parte da letra é referente ao tiro que o piloto levou em julho de 1917. Aliás, muitos julgam que a imprudência (e morte) do Barão em sua última batalha foram devido ao projetil alojado em sua cabeça, este que o limitou desde então. Richthofen morreu em combate no dia 21 de abril em 1918 próximo a Amiens, na França. A causa de sua morte foi um tiro fatal no coração.
Shadows of The Valley
“Shadows of The Valley” é uma das músicas mais ambíguas do Iron Maiden, abrindo vários caminhos para interpretações e deduções. Muitos dizem que a faixa foi baseada, assim como a música “The Pilgrin” do álbum “A Matter of Life and Death”, no livro “The Pilgrim’s Progress From This World To That Which Is To Come”, do autor britânico John Bunyan.
Já outros afirmam que a canção foi inspirada em uma foto feita pelo famoso fotógrafo inglês Roger Fenton. A imagem em questão é uma das mais populares do artista e chama-se “Shadow of The Valley of Death”. A foto foi concebida no local da guerra de Crimeia e registra a localidade onde a cavalaria britânica enfrentou os russos. Este local é o mesmo descrito no conhecido poema “Charge of The Light Brigade” de Alfred Lord Tennyson, poema este que serviu de inspiração para o Iron Maiden na famosa música “The Trooper”.

O fato é que não se pode afirmar com exatidão o contexto da faixa, até porque ele permeia até mesmo a versículos bíblicos, como no caso do trecho: “Into the valley of death fear no evil / We will go forward no matter the cost” (05:50), (dentro do vale da morte não tema nenhum mal, nós seguiremos em frente), que se assemelha e muito com o salmo 23:4: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo”. Porém, em minha opinião, a canção é uma ótima junção de todas essas ideias, visto que a faixa traça seu caminho descrevendo o pecado humano e sua máxima, todas em contraponto a sentimentos diversos.
Tears of A Clown
Umas das melhores músicas do trabalho foi também uma das mais aguardadas, já que abertamente a banda afirmou se tratar, em parte, sobre o ator e comediante Robin Williams.
 A canção faz analogia em torno da depressão que assola muitos artistas que trabalham com humor. Por incrível que pareça, isso chega a ser “comum” no meio da comédia, tanto que existem psicólogos especializados exclusivamente neste assunto. Aparentemente existe uma relação entre uma suposta felicidade e a profunda depressão, no caso, as risadas tornam-se um tipo de defesa contra os problemas corriqueiros da vida, escondendo através da “alegria” uma dor incalculável.
O ator Robin Williams, que dispensa apresentações, foi encontrado morto em sua casa, em Paradise Cay, Califórnia, no dia 11 de agosto de 2014, após cometer suicídio por asfixia. Segundo Mara Buxbaum (agente do ator), Williams estava sofrendo de uma depressão muito complicada.

“Tears of A Clown” (Lágrimas de Um Palhaço) faz menções diretas a Pierrot, personagem da Commedia dell’Arte, um palhaço triste que é apaixonado pela Colombina, esta que lhe parte o coração ficando com o Arlequim. Pierrot, que na verdade é uma variação francesa do Pedrolino italiano, é comumente representado usando roupas largas e brancas, por vezes metade pretas, rosto branco e uma lágrima desenhada abaixo dos olhos, uma de suas características latentes é a ingenuidade.

The Man of Sorrows
Quando vivemos “mecanicamente”, onde todo o nosso esforço está no trabalho, problemas diários, contas e todos os empecilhos que a sociedade vorás impõem, acabamos deixamos nossos sonhos pessoais passarem em branco, como se “jogássemos pedrinhas na maré do oceano” (00:49), abrindo assim, um parêntese para sermos homens amargurados.
“The Man of Sorrows” traz de forma peculiar este questionamento e propõem que ao observarmos nossos erros. Ao observar o homem de amarguras, podemos perceber “através da névoa da verdade” (01:30), aquilo que por muito tempo julgamos ser apenas ilusão.
Empire of The Clouds
A faixa de encerramento do álbum não poderia ser mais grandiosa, “Empire of The Clouds” é simplesmente épica. A canção composta no piano por Bruce Dickinson relata de forma magnífica os acontecimentos reais ocorridos com o dirigível R-101.
O dirigível R-101 foi construído no final da década de 20. Coberto pela relva da grandeza, ele representava o orgulho do império britânico.
A aeronave era a maior embarcação rígida já construída, com exorbitantes 220 metros de comprimento. Foi desenhada para que seus tripulantes tivessem o maior conforto e luxo possível, o papel principal do R-101 era fazer viagens distantes, para Índia e Canadá, por exemplo.


Devido à diversas alterações no projeto original, a aeronave demonstrou ter problema de peso, e por mais que os engenheiros tentassem, nada foi resolvido, as inúmeras “soluções” acabavam por deixar a aeronave ainda mais pesada.
A pressão política sobre o ministro do ar, Lorde Christopher Thompson, era muito grande devido aos gastos. O fator político decidiu então que o R-101 faria seu voo inaugural durante a conferência imperial de 1930. A pressa fez com que testes em altas velocidades e condições climáticas desfavoráveis não fossem realizados com satisfação. Então em 04 de outubro de 1930 o R-101 faz seu primeiro (e último) voo com destino a Karashi.
A música começa neste ponto. Uma linda melodia enche os ares com uma calmaria quase que poética, descrevendo perfeitamente o clima calmo daquela manhã de 1930:
Para cavalgar a tempestade, para um império nas nuvensPara cavalgar a tempestade, eles subiram a bordo de seu fantasma prateadoPara cavalgar a tempestade, para um reino que viráPara cavalgar a tempestade, e dane-se o resto… esquecimento
Bruce recita um canto majestoso, como se o próprio céu se curvasse a grandeza daquela aeronave. Então a próxima linha musical desenha seu enredo narrando o voo e seus tripulantes, estes que celebravam a viagem e riam diante a possibilidade da aeronave cair: “uma em um milhão” ironizava a realeza, para a Índia o “tapete mágico” deveria seguir:
Realeza e dignitários, Brandy e charutosGigante Dama Cinzenta dos CéusVocê os acolhe a todos em seus braçosA milionésima chance, eles riramDe derrubar o dirigível de Sua Majestade‘Para a Índia’, eles dizem, ‘Tapete mágico, vá voando’Em um funesto dia de OutubroA névoa nas árvoresAs pedras suam com o orvalhoO nascer do sol, vermelho antes do azulPendurado no mastroEsperando pelo comandoA aeronave de Sua MajestadeO R-101
A música vai ganhando peso e um clima carregado e preocupante. As guitarras e bateria tecem climas mais densos. Ao ponto que enaltece o gigante no ar Bruce recita e antecede a fúria que estava por vir:
É a maior embarcação feita pelo homemUm gigante dos céusPara todos os incrédulosO Titanic cabe dentroRufem os tambores, apertem sua pele de lonaPrateada no solNunca testada com a fúriaCom a surra que estava por virA fúria que estava por vir
O peso toma conta, como se o peso excessivo do próprio R-101 descrevesse sua história, relembrando com perfeição da tempestade vista a oeste, lamentando pelo ego da tripulação que decide prosseguir mesmo desconhecendo seu “calcanhar de Aquiles”. A força política era gigantesca, medido centímetro a centímetro com a própria marca da aeronave. Porém o destino fazia ali sua alquimia.
Reunidos na penumbraUma tempestade se levantando a oesteO timoneiro observouEm seu equipamento de previsão do tempoTemos que ir agoraTemos que arriscar nossa chance com o destinoTemos que ir agoraPor um político, ele não pode se atrasarA tripulação da nave, acordada por trinta horas de trabalho seguidoMas a nave está em seu sangue, cada músculo, cada polegadaEla nunca voou a toda velocidadeUm teste nunca realizadoSua frágil cobertura externaSeu Aquiles se tornariaUm Aquiles que ainda viriaMarinheiros do céu, uma guarnição endurecidaLeais ao rei, e ao credo de uma aeronaveOs motores batemO telegrafo soaSoltem as cordasQue nos prendem ao chão
Com uma expressão quase que teatral, Bruce encarna o timoneiro como se vivesse através dos olhos do mesmo. Uma parte linda e histórica perfeitamente destrinchada. Uma poesia em forma de música:
Disse o timoneiro ‘senhor, ela é pesada’‘Ela nunca fará este voo’Disse o capitão ‘dane-se a carga’‘Seguiremos nosso caminho esta noite’As pessoas em terra exclamaram, maravilhadasEnquanto ela se afastava do mastroBatizando-se em sua águaDe seu lastro, da frente para trásAgora, ela escorrega para dentro de nosso passado
A cadência toma conta dos acordes, deslizando junto ao primeiro voo do gigante, e é neste momento que o Iron Maiden genialmente, através das guitarras, baixo e bateria, exatamente aos 6:55 minutos reproduz um sinal de código Morse, S.O.S., alertando todos sobre o pedido de socorro dos tripulantes. ESPETACULAR!
Um riff lindo e climático é executado. Quase que se ouve os lamentos da guitarra, então mais uma vez o sinal de S.O.S. é reproduzido, e se transforma numa digitação que nos remete aos tempos áureos de “Hallowed Be Thy Name”. A música decorre e o turbilhão de problemas da aeronave é representado pelo instrumental, culminando no solo de Dave Murray.
A tensão volta com o riff pós-solo (que coisa linda). Neste momento é inevitável a queda do R-101, porém a cadência também parece representar a luta da tripulação para evitar a tragédia:
Lutando contra o vento enquanto ele te assolaSentindo os motores a diesel que te empurram para frenteVendo o canal abaixo de vocêMais e mais baixo dentro da noiteAs luzes estão passando abaixo de vocêO norte da França dormindo em suas camasA tempestade está rugindo ao seu redor‘Um milhão para uma’ é o que ele disse
Após cruzarem a costa inglesa, chegando ao norte a França (que por sinal era bem longe do ponto pretendido), chega-se a região de Beauvais, famosa pela péssima condição climática.
Um riff diferente quebra o clima. A orquestração é envolvente e carregada por uma cortina tragicamente estendida sobre o tema. Bruce continua narrando magistralmente o fato. Sua voz afiada parece comungar junto ao rasgo existente na aeronave, que inundada pela água da chuva, ceifa a vida de homens experientes:
O ceifador está parado ao seu ladoCom sua foice, corta até os ossosO pânico de tomar uma decisãoHomens experientes dormem em seus túmulosSua cobertura está rasgada, e ela está se afogandoA chuva está inundando o corpo da naveSangrando até a morte, e ela está caindoGás flutuador está se esgotando‘Estamos perdidos, companheiros’, veio o lamento
Neste ponto os pianos voltam a ressoar, agora com acordes de tristeza e tensão, até o cume em que Bruce recita versos dolorosos de perda:
Mergulhando numa curva, vindos do céuTrês mil cavalos silenciaram-seEnquanto a nave começava a morrerAs chamas para guiar seu caminhoAcesas no fimO Império das NuvensApenas cinzas em nosso passadoApenas cinzas, no final
Resumido a cinzas, pouco restou do R-101; apenas uma carcaça esparramada no norte da França. Era o fim da primeira era britânica de desenvolvimento de aeronaves, enterrando não somente um sonho, mas também 48 de seus 54 passageiros, incluindo oficiais de alto escalão e o ministro britânico do ar. A música se encerra com tristes frases poeticamente seguidos por um triste e real acontecimento:

Aqui jazem os sonhosEnquanto estou parado embaixo do solNa terra onde eles foram construídosE os motores realmente funcionaramPara a lua e para as estrelasAgora, o que foi que nós fizemos?Oh, os sonhadores podem ter morridoMas os sonhos continuam vivosOs sonhos continuam vivos – os sonhos continuam vivos
Bruce faz sua despedida entre os acordes finais da música. Sua voz amarga trasborda tristeza, porém resplandece em respeito ao R-101 e principalmente aos 48 mortos que fizeram história junto ao IMPÉRIO DAS NUVENS.
Agora uma sombra na colinaO anjo do lesteO Império das NuvensDescansa em pazE em um cemitério pequeno, na igrejaDeitados de frente para o mastroQuarenta e oito almasQue vieram a morrer na França.
Simplesmente incrível! Mais que uma música; uma obra de arte fora do comum! É indescritível o quão épica é essa canção! Vou encerrar essa análise temática com as frases de Bruce a respeito do R-101:

“Os sonhadores podem ter morrido, mas os sonhos continuam vivos”








sábado, 6 de agosto de 2016

Iron Maiden: Análise temática do álbum “The Book of Souls” – Parte 1



Lançado em 4 de setembro de 2015, The Book of Souls deu ao Iron Maiden o primeiro lugar nas paradas inglesas e em mais 23 países, incluindo o Brasil.
O disco que foi lançado em formato duplo, tem como base a temática Maia, trazendo inclusive um Eddie totalmente sombrio com características claras aos habitantes da civilização mesoamericana pré-colombiana, porém, o álbum não é conceitual, arrastando em sua linha gramatical temas adversos.
The Book of Souls, a meu ver, é o melhor álbum lançado pela Donzela desde Brave new world, portando-se grandioso junto a discos clássicos como Powerslave e The Number Of The Beast. Então aqui, no cargo de sommelier, harmonizarei a vocês enófilos, o tema de todas as faixas desta insana obra de arte.
 If Eternity Should Fail
O disco abre com uma das melhores composições já gravado pelo Iron Maiden, “If Eternity Should Fail” é simplesmente espetacular, a faixa que começa com uma expressiva narração de Bruce Dickinson, fala sobre o personagem fictício “Dr. Necropolis”, que aparentemente consegue roubar a alma dos homens.
A música cita a criação do mundo até a origem da raça humana, descreve também a pureza da alma e como somos estranhos crédulos. No refrão, temos uma criativa referência a aceleração do curso natural da humanidade, visto que rizamos a vela de nosso barco (vida), no limite do mundo. A palavra “Reef in” (Rizar), cantada no refrão, é uma técnica náutica que consiste em reduzir o tamanho da vela quando o vento está forte, o rizar aumenta a performance e velocidade do barco.

De forma peculiar, “If Eternity Should Fail” abre vários questionamentos em relação a religião e a humanidade, todos em contraponto com a alma, fazendo inclusive uma analogia entre a queda de lúcifer que brilha abaixo de Deus, e a queda da própria humanidade figurada através Adão e Eva.
A canção, que inicialmente foi composta para um disco solo de Bruce Dickinson, traz ainda uma pragmática referência ao tema principal do disco, logo no início da canção, a letra menciona o Xamã, este que em vários povos indígenas, incluindo claro os Maias, era um tipo de sacerdote que através de um ritual podia entrar em contado com os espíritos.

Speed of Light
A segunda faixa do álbum, que aliás foi o primeiro single de “The Book of Souls”, carrega a soma de 299.792.458 metros por segundo, “Speed of Light” esbanja vontade e trechos que podem ser interessantes aos amantes da física, assim como eu.
A velocidade da luz (Speed of Light), que é representada pela letra C de “constante” ou “Celeritas” (palavra do latim que significa “rapidez”), foi medida pela primeira vez no século 16 pelo astrônomo dinamarquês Olaf Roemer (1644-1710). Com a velocidade da luz comprovada, sabemos hoje que o que vemos a um milhão de anos-luz é a imagem do que havia um milhão de anos atrás.
Musicalmente falando a faixa é excelente, uma guitarra crua junto a um grito visceral de Bruce Dickinson dão boas-vindas ao marcante canto que se desdobra em excitantes momentos. A letra conta de forma simbólica a “corrida humana”, e para resenhar essa simbologia, a banda usa pontos científicos, como por exemplo a “Teoria das cordas” defendida por Stephen Hawking, que entre várias coisas prediz o número de dimensões que o universo deve possuir, a teoria das cordas permite calcular o número de dimensões espaço-temporais a partir de seus princípios fundamentais.
Claramente a canção narra uma viagem espacial, e em vários trechos cita representativamente os buracos negros, nos fazendo pensar que esta viagem seja atemporal. Segundo a teoria da relatividade geral de Albert Einstein, o buraco negro é um ponto do espaço no qual, nada, nem mesmo partículas que se movimentam na velocidade da luz podem escapar. Os buracos negros são resultados das deformações do espaço-tempo, causados após o colapso gravitacional de uma estrela.

“Speed of Light” também foi o primeiro (e até agora único), clip feito para “The Book of souls”. O interessante é que o vídeo, feito totalmente em computação gráfica, faz uma homenagem aos jogos de videogame.
Saiba mais sobre o clip no link abaixo:
The Great Unknown
Com um instrumental introdutório pra lá de introspectivo, onde o baixo executa uma única nota fazendo uma cama climática para o inspirado dedilhado de guitarra, “The Great Unknown” resenha um ar metafórico em relação a humanidade.
Egoísmo, dor, vingança, cobiça e violência são descritos com muita sutileza e criatividade na faixa, inclusive permeando alguns trechos a versículos bíblicos. “The Great Unknown” tem como base mostrar que o ódio de nossa humanidade acabara por fim dando cabo na mesma.
The Red and the Black
Arrisco em dizer que esta música seja, em parte claro, uma continuação da faixa “The Angel & The Gambler” lançado em 1998 no disco Virtual XI, já que em “The Red And The Black” temos mais uma vez o tema proposto em 1998, onde a máxima gira em torno de jogos de azar, especificamente jogos com cartas.
Apesar da música ser ambígua, claramente percebemos que Harris quis representar a vida como sendo um jogo, neste caso um jogo de cartas, demostradas aqui através de dois naipes de baralho, Rainha de Copas (the red) e Rei de Paus (the black).
Musicalmente a faixa é estupenda, com grandiosos 13:33 minutos, a canção se inicia com um “solo” de baixo no tom de “mi” (E), com claras inspirações espanholas, desdobrando-se num excelente riff. O canto vem sempre acompanhado por uma guitarra que executa as mesmas melodias expressadas por Bruce, que aliás faz um ótimo trabalho transformando a faixa numa das melhores do álbum.
Um fato interessante a se ressaltar em “The Red And The Black” é que o nome da faixa também foi usada pelo escritor francês Henri-Marie Beyleno em seu livro “Le Rouge et le Noir” (O Vermelho e o Negro), de 1830. O livro que é dividido em duas partes, porta-se como um romance histórico psicológico, que narra a sociedade francesa no tempo da Restauração antes da Revolução de 1830, supostamente entre 1826 e 1830.
O interessante é que o personagem central do livro, Julien, passa por momentos de angústia, traição, hipocrisia, amor e morte, pontos estes também encontrados na letra de Steve Harris. Vários outros momentos permeiam aos acontecimentos do livro, porem nada tão concreto, visto que o texto do baixista abre caminho a várias interpretações.
When the River Runs Deep
Em “When the River Runs Deep” temos uma ótima analogia em relação a morte, aqui de uma forma metafórica, a letra trata nossa vida com um rio, este que pode ser raso em certos pontos e profundo em outros, conturbados em certos momentos, porem brandos em vários outros, além do que, o rio sempre corre rumo ao mar (morte).
É interessante quando analisamos a letra por esta ótica, já que o texto traz sufocantes questionamentos em relação a erros que nos leva, de uma forma ou de outra, a um fatídico afogamento de nossa vida. Não há tempo para chorar quando alguns de nós estão morrendo, principalmente quando o rio que corre profundo em nos, está cada vez mais próximo ao mar de nossa existência.
The Book of Souls
Sem dúvida nenhuma “The Book of Souls” é uma das melhores composições do ano. Com um violão climático e um riff fenomenal, a faixa descreve em vários momentos fatos históricos sobre a civilização Maia.
A civilização Maia foi uma cultura mesoamericana pré-colombiana, que teve na escrita e língua grande notoriedade. O sistema de escrita Maia era uma combinação de símbolos fonéticos e ideogramas, chamados de Hieróglifos.

Os Maias tinham como base econômica a agricultura, principalmente do milho, no qual dispunha de três tipos deles, porém contavam também com o algodão, tomate, cacau, batata e frutas.
Sua organização na agricultura só não era mais notável que seu sistema matemático, tanto que Produziram observações astronômicas amedrontadoramente precisas; seus diagramas relacionados aos movimentos da Lua e dos planetas, são iguais ou mesmo superiores aos de qualquer outra civilização que tenha como apoio instrumentos óticos. Tal matemática superior, dava aos Maias um poder de prever eclipses solares, lunares e até mesmo mudanças no ciclo do sol, transformando seus calendários em verdadeiras “pedras de prever o futuro”.

Logo no início da canção, a letra relata um sacrifício (Sacrifices buried with kings). Quando um Rei, Rainha ou mesmo um Sacerdote morria, os Maias sacrificavam uma pessoa próxima do falecido, podendo ele ser um membro da família ou um amigo querido, o objetivo era que o sacrificado ajudasse o Rei, Rainha ou Sacerdote a entrar no mundo espiritual. Geralmente eram sacrificados pequenos animais para oferecer aos Deuses, porém, quando algo fora do comum ocorria, entregavam então sacrifícios humanos, e acreditem, muitos desses sacrifícios eram de crianças, isso porque pregavam que as almas dos pequeninos eram puras.