quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Stygma IV : O maior expoente Austríaco de Power Metal



Em 1996 na cidade de Salzburg – Áustria, o guitarrista e tecladista Günter Maier decide mudar o nome de sua banda, o BIG HEAT, para STIGMATA. Mesmo com o Big Heat recebendo um certo reconhecimento, tendo inclusive lançado dois álbuns oficiais, “Scenes of Fire” de 1992 e “Grand Ominous Dreams” de 1995, Günter Maier opta por mudar o nome, já que as linhas musicais do grupo estavam seguindo um “punch” mais Heavy, no qual, o nome Stigmata seria mais viável.
Sendo assim, o grupo formado por RITCHIE KRENMAIER (Voz), GÜNTER MAIER (Guitarra e Teclados), ALI HILZENSAUER (Baixo), HERB GREISBERGER (Bateria), edita a arte da capa de “Grand Ominous Dreams”, e relançam o álbum como Stigmata. O disco em questão é simplesmente matador, repleto de ótimas linhas de guitarras e marcantes frases vocais, “Grand Ominous Dreams” é um verdadeiro petardo. Músicas longas como Spirits Rising, The Fool e a linda The Edge, já transpiravam o propósito do grupo com genialidade.

Após a mudança do nome, tudo corria de vento em popa, até que uma banda, também chamada Stigmata, entra na justiça reclamando ser dona da marca, então, para evitar o processo, o grupo decide acrescentar o apêndice “IV” (quatro em número Romano), ao nome, fazendo uma referência aos quatro membros da banda, e permeando uma analogia em torno das chagas dos estigmatizados.
Em questão de curiosidade, os estigmatizados (religiosamente falando), são pessoas que adquirem as marcas da crucificação de Jesus Cristo, como a ferida causada pela coroa de espinhos, os ferimentos nos punhos e pés, além do corte no tórax. O primeiro estigmatizado registrado na história foi São Francisco de Assis, porém, o mais conhecido creio ser São Pio de Pietralcina, cujos estigmas foram analisados por médicos e estudiosos.
Como STIGMATA IV, a banda lança em 1998 pela gravadora alemã Noise Records, o disco “Solum Mente Infirmis”, que definitivamente definiu o estilo do grupo. Músicas complexas e bem compostas como as grandes Sacred Man e In Your Eyes, ignoram completamente o lado comercial, mostrando uma banda integra e sem floreios modistas. Com “Solum Mente Infirmis” a banda ganha total confiança da gravadora, tanto que lançam no mesmo ano o magnifico “The Court of Eternity”, disco este que é considerado por muitos como sendo a obra prima do conjunto.


“The Court of Eternity” colocou o Stigmata IV no mesmo patamar dos grandes nomes do Power Metal mundial, mais como nem tudo nessa vida são flores, um novo processo referente a patente do nome assolou a banda, e para solucionar de vez esse problema, optam por substituir Stigmata IV por Stygma IV, mantendo em parte a ideologia do nome, e resolvendo de vez o problema judicial.
Mesmo íntegros em suas composições, a nova mudança de nome deixou um pouco a popularidade do grupo em baixa, creio que muitos, inclusive as mídias especializadas, demoraram a assimilar mais uma mudança. Em 2001, a banda lança pelo pequeno selo alemão Rising Sun, um incrível disco intitulado “Phobia”, que manteve o padrão de “The Court of Eternity”, porém sem a mesma força de divulgação. O disco traz músicas lindas como Dying e Gethsemane, que somadas a petardos como Inhumanity e Madness dão um ar diferencial a obra. Vale lembrar que “Phobia” conta ainda com um excelente cover para a canção 22 Acacia Avenue do Iron Maiden”, além de uma interessante versão para “I.N.R.I. (overture to Jesus Christ Superstar)” do lendário musical da Broadway – Jesus Christ Superstar.

Em 2002 a banda lança, também pela Rising Sun Records, o álbum “The Human Twilight Zone”. O disco mais uma vez mantem o alto padrão nas composições, provando que a banda sempre teve o diferencial dos grandes. Faixas fenomenais como Calculation Towers, The Void e The Human Twilight Zone, são de cunho grandiosos, aliás, o disco todo decorre com grandeza, destilando linhas vocais caprichadas e de apego sentimental, todas acompanhadas por excelentes e inspiradas bases de guitarra e baixo. Dois anos após o lançamento de “The Human Twilight Zone” a gravadora S.A.D. Music decide relançar o disco, porém com uma capa diferente da arte original.

Os dois álbuns lançados como Stygma IV, deu a banda um gás a mais, e para consolidar essa energia, decidem então lançar em 2003, de forma independente, um disco ao vivo chamado “A History in Pain – Live”. O registro contem pouco mais de 72:00 minutos e traz músicas de todas as fazes da banda.

O último álbum de inéditas a ser gravado pelo Stygna IV, é sem dúvida nenhuma uma obra prima metálica, “Hell Within” foi lançado em outubro de 2004 pela gravadora francesa NTS e mostra todo o feeling do grupo. Em “Hell Within” podemos perceber uma banda madura que executa com precisão a ideia proposta, em minha opinião, “Hell Within” e “The Court of Eternity” são as melhores obras da banda, figurando-se entre as mais inspiradas na história do Power Metal mundial. No final do ano de 2004, a gravadora S.A.D. Music relança o disco em formato digipack com a arte da capa diferente e em copias limitadamente numeradas, o disco também trazia um belo cover para a canção “Music” do cantor, guitarrista e tecladista inglês John Miles.

O Stygma IV é sem dúvida nenhuma o maior expoente do gênero na Áustria, que infelizmente, depois do lançamento de “Hell Within”, decidiu encerrar suas atividades devido aos problemas de saúde do baterista Herb Greisberger.
Mesmo com muita dificuldade, o Stygma IV se mostrou superior, e com genialidade, brindou seus ouvintes com músicas viscerais e marcantes. Em 2005 uma coletânea chamada “Rotting Corpses” foi lançada pelo grupo de forma independente, o disco foi disponibilizado somente via Web pelo site da banda, a coletânea na verdade é uma compilação de faixas raras e regravações, contendo inclusive dois covers, uma para “Heaven and Hell” do Black Sabbath e outra para “I’m A King Bee” de Slim Harpo.
Se existe uma banda importante para o cenário metálico Austríaco, ela com certeza se chama Stygma IV, mesmo com muitas mudanças no nome, o grupo soube se manter integro e nunca baixou a cabeça. Resta agora a torcida para que o grupo volte, pois bandas assim, jamais devem ser enterradas pelas areias do tempo.
Assista os vídeos abaixo e conheça um pouco mais sobre a banda:



Iron Maiden: Músicas da era Blaze Bayley cantadas por Bruce Dickinson


Quando o vocalista decide deixar a banda, uma grande incógnita passa a rondar o futuro da mesma, principalmente quando esse vocalista gravou os discos mais populares do grupo. Muitas vezes uma parcela do público acaba torcendo o nariz para o substituto, e por consequência, condenam os trabalhados gravado pelo músico recém chegado.
O Iron Maiden passou duas vezes por isso, ambas devido a Bruce Dickinson. Quando Bruce substituiu o então vocalista Paul Di’Anno, vários fãs criticaram a entrada do frontman, porem, o primeiro registro em estúdio do músico com a banda, foi simplesmente magnifico, e os fãs mais críticos acabaram dando o braço a torcer, tanto que Bruce virou um ícone.
Os anos se passaram, e Bruce decide então deixar a donzela, trazendo novamente para o Iron Maiden os velhos problemas de outrora. É ai que entra na jogada Mr Blaze Bayley, que entra para banda e não agrada o público, mesmo assim, dois discos foram gravados com ele, discos estes, que em minha opinião são excelentes, apesar de controversos.
Como muitos de nós sabemos, a estadia de Blaze não foi muito boa, problemas extra palco como o acidente de motocicleta que lesionou gravemente seu joelho e adiou o início da turnê de The X Factor, mais alguns problemas de saúde, acabaram causando sua demissão em 1999.
“Era uma época diferente para o Iron Maiden. A indústria da música estava mudando, os MP3s estavam chegando, o hardware estava começando a desaparecer. As vendas de CDs estavam caindo para todos ao redor do mundo e era uma época em que muitos fãs antigos do Maiden não queriam Blaze Bayley nos vocais, e lá estava eu, procurando letras e músicas para o terceiro álbum, o que eu pensava com meu tolo coração: ‘Esse aqui vai mudar as coisas.’ Os fãs vão pensar: ‘Agora nós entendemos porque Blaze está aqui. Isso é realmente bom.’ Mas eu não tive essa chance.” explicou Bayley.
Blaze Bayley não teve esta chance, porem deixou na história do Maiden músicas excelentes, tanto que algumas delas viraram clássicos. Logo após sua demissão, Bruce Dickinson retorna ao Iron Maiden e acerta as coisas. É inegável a qualidade técnica de Bruce, porém, como será que ele se sairia cantando músicas da era Blaze? Acredite, muito bem! vamos a algumas delas:
1- Man On The Edge


2- Lord Of The Flies


3- Sign Of The Cross


4- Futureal


5- The Clansman

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Megadeth: análise temática do álbum “Rust In Peace”


A história do Heavy Metal é repleta de capítulos fenomenais. Nos primórdios, quando ainda chamávamos esse estilo de Rock ’n’ Roll, os padrões comportados de nossa sociedade ficaram chocados com a forma libertária e por vezes provocativa no qual o Rock destilava suas músicas. Os anos foram passando, o som foi evoluindo, e os velhos problemas e temas já não eram os mesmos, porém, muitos deles se transformaram, assim como o próprio Rock. Hoje em dia, o estilo tem muitas ramificações e nomes, tematicamente ainda carrega as mesmas críticas de outrora, a diferença é que agora ela corrobora junto a propagação de conhecimento e apego culturais.
Lançado em 24 de setembro de 1990 “Rust In Peace”, do Megadeth, veio repleto deste tipo de crítica e conhecimento. Religião, guerra, política e problemas sociais são muito bem pintados através do conceito pessoal de Dave Mustaine. O álbum em questão nos presenteia com temas carregados e um instrumental pra lá de inspirado e técnico. O disco ganhou platina em 1994, além de indicações ao Grammy em 1991 e 1992 por “Melhor Performance de Metal”.
 A superioridade técnica e temática de “Rust In Peace” são muito bem retratadas através das nove faixas existentes no álbum, tanto que tais músicas colocaram o Megadeth no apogeu cultural do Heavy Metal. Vamos então adentrar um pouco no tema de cada faixa desta insana obra de arte.
Holy Wars… The Punishment Due
O álbum abre com a clássica “Holy Wars… The Punishment Due”. Instrumentalmente a faixa é estupenda e destila muita técnica e sentimento. O cromatismo usado por Mustaine é de uma pegada estonteante e viciante. A letra fala sobre as chamadas “guerras santas”, estas que há anos dividem países e usurpam vidas, principalmente entre o povo de Israel e Palestina. Apesar de não ter nada de santa numa guerra, conflitos internos e políticos sempre são triplicados quando se coloca a religião na equação. “Holy Wars… The Punishment Due” faz uma ótima analogia em torno dessa ideia, mostrando o quanto é alienante e perigoso transformar o púlpito em um palanque.
Hangar 18
Com um riff inicial empolgante e marcante, a exuberante “Hangar 18” se porta extremamente técnica e objetiva. A faixa contém onze solos em pouco mais de cinco minutos. Tecnicamente falando, podemos dividir a canção em três partes dentro do campo harmônico de ré menor. Na primeira parte, temos o riff da introdução; na segunda parte, inicia-se então o canto acompanhado de quatro pequenos solos; e para finalizar, na terceira parte, a faixa se torna praticamente instrumental, com sete solos intercalados por pesadíssimos interlúdios.
A letra de “Hangar 18” é uma insinuação a famosa Área 51, e também a existência de alienígenas no complexo. A chamada Área 51 é uma área militar restrita no deserto de Nevada, próxima ao Groom Lake, Estados Unidos. Ela é tão secreta que o governo estadunidense só admitiu sua existência oficialmente em 1994, porém, com muitas restrições.


Take No Prisoners
Com um riff potente acompanhado por uma bateria muito bem composta por Nick Menza, “Take No Prisoner” tem seu enredo baseado em guerras. A faixa faz claras menções à Batalha da Normandia, que ocorreu em 6 de junho de 1944, onde aliados ocidentais deram início a uma operação chamada “Overlord”. Estados Unidos, Reino Unido e França Livre tinham como objetivo livrar a França do domínio alemão. A invasão da Normandia até hoje é considerada a maior invasão marítima da história.

A faixa num todo faz críticas indiretas à guerras, citando inclusive um trecho do lema do Grande Irmão (personagem do livro 1984 de George Orwell), que dizia: “Guerra é paz”. Outra frase famosa, que neste caso acabou sendo invertida na música, fica por conta de John F. Kennedy: “não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país”.
Five Magics
Com um baixo muito climático, “Five Magics” destila muita peculiaridade e nos remete aos tempos áureos da magia. Com pouco mais de dois minutos de introdução, a faixa descreve um homem que anseia e acaba conseguindo dominar as cinco magias: alquimia, bruxaria, feitiçaria, termatologia e eletricidade.
A magia sempre foi muito estudada e por vezes ligada a ciência, tanto que antigamente era chamada de “Grande Ciência Sagrada”. A primeira mágica citada por Mustaine é a alquimia, esta que na verdade era a química da Idade Média, que procurava (assim como a ciência atual), descobrir a cura para todos os males, tanto físicos quanto morais. A alquimia também tentava criar a chamada “pedra filosofal”, que transformaria qualquer metal em ouro.
Na sequência, temos a bruxaria e a feitiçaria, ambas as artes são ligadas uma a outra, porém a bruxaria tem um cunho religioso, já a feitiçaria, que por sua vez tem como intuito interferir no estado mental, “astral”, físico e/ou perceptivo da realidade, não tem necessariamente essa ligação religiosa. Tanto o bruxo, como o feiticeiro executam magias (incluindo, claro, a feitiçaria). A diferença é que o bruxo reverencia um deus, deusa, deuses ou deusas.
A termatologia mencionada na música como a quarta magia é o uso do calor como remédio ou terapia médica. O termo é também chamado de “termo-terapia”.  A termo-terapia é usada no tratamento das doenças articulares pela aplicação do calor, tanto superficialmente como profundamente.
Para finalizar, temos a eletricidade. Curiosamente, a eletricidade no princípio foi ligada a magia e ao sobrenatural. Sua descoberta foi feita por um filósofo grego chamado Tales de Mileto que, ao esfregar um âmbar a um pedaço de pele de carneiro, observou que pedaços de palha e ciscos de madeira começaram a ser atraídas pelo âmbar.
Nikola Tesla (que, entre as suas contribuições para a humanidade, temos:  os sistemas de potência elétrica em corrente alternada, sistemas polifásicos de distribuição de energia, o efeito Tesla de transmissão sem fio de energia, a robótica, o controle remoto, o radar, a ciência computacional e a balística), era considerado um verdadeiro mago em sua época. Tesla viajou para os Estados Unidos e toda a Europa demostrando suas teorias e invenções. Ele era famoso por fazer demonstrações artísticas, agindo quase como um mágico. Tesla que era conhecido como “o mestre dos raios”, se negava a palestrar caso não tivesse presente na sala sua bobina emitindo raios.

Poison Was The Cure
Não é segredo pra ninguém que Dave Mustaine sempre teve problemas com drogas (inclusive já foi preso portando oito tipos de drogas injetáveis). Apesar de hoje em dia esse problema não fazer parte do cotidiano do músico, várias músicas do Megadeth com certeza foram compostas através de influencias químicas. “Poison Was The Cure”, que tem uma introdução de baixo bem densa e criativa, retrata de forma artística os problemas que o frontman tinha com o vício da heroína. De uma forma representativa, Mustaine usa uma serpente para simbolizar a droga que corria em sua veia.
Lucretia
Com um riff inspiradíssimo, “Lucretia” (Lucrécia), traz excelentes solos e um clima carregado e narrativo. A música fala sobre um suposto fantasma que vive no sótão da casa de Dave Mustaine. No início da canção, uma risada estranha dá as boas-vindas à faixa. Seria essa a risada de Lucrécia?
Na história da humanidade tivemos duas figuras famosas chamadas Lucrécia: uma foi Lucrécia Bórgia, esta que foi a filha ilegítima de Rodrigo Bórgia, importante personagem italiano do Renascimento, que viria a se tornar o papa Alexandre VI, e a Lucrécia de Roma, que foi uma lendária dama romana, filha de Espúrio Lucrécio Tricipitino, prefeito de Roma, e mulher de Lúcio Tarquínio Colatino.

Tornado of Souls
“Tornado of Souls” é simplesmente impecável – riff, base, solos e linhas vocais excelentes compõem com grandeza essa obra que se tornou um clássico absoluto do Megadeth. A letra retrata o momento emocional de Mustaine após o termino com sua noiva Diana, com quem aliás ficou junto por seis anos. De forma extremamente rancorosa e por vezes aliviada, a canção traz frases como: “mas agora eu estou salvo no olho do tornado” e “você não se esquecerá dos meus lábios/ você sentirá minha respiração fria, é o beijo da morte”.
Dawn Patrol
Com uma ótima introdução de baixo criada por Ellefson, e letras declamadas ao invés de cantadas, a oitava música do álbum trata de forma contundente o problema da destruição ambiental causada pelo aquecimento global e também como seria nossa vida caso passássemos por uma guerra nuclear. “Dawn Patrol” é quase que uma introdução para a faixa de encerramento do disco.
Rust In Peace… Polaris
A última música do disco encerra com grandeza o clássico álbum. É desnecessário frisar a qualidade técnica da faixa, visto que isso é uma constante durante o disco todo. A temática, que mais uma vez fala sobre guerra nuclear, ocorreu a Mustaine quando ele estava dirigindo pra casa vindo da cidade de Lake Elsinore, Califórnia, quando reparou num veículo que seguia a frente. No para-choque tinha um adesivo que dizia o seguinte: “tomara que todas as ogivas nucleares enferrujem em paz”. Imaginou então aquelas velhas ogivas estocadas numa praia qualquer com crianças fazendo pichação nelas. O nome original da música seria “Child Sin”, e Dave a compôs ainda quando estava no Metallica, porém, somente em 1990 a canção saiu da gaveta. (Fonte: Site Megadeth Brasil).
Para se entender melhor a canção, é preciso saber que na época do lançamento do álbum existia um acordo entre as potências mundiais sobre o desarmamento nuclear. Aliás, há uma ótima alusão a isso na capa do disco. A arte da capa que foi elaborada pelo artista Ed Repka, conta com o mascote do Megadeth, Vic Rattlehead, mais os cinco líderes da chamada “five major world powers”, do início dos anos noventa. Os cinco líderes representados na capa são os seguintes: o ex-primeiro ministro britânico John Major, o ex-primeiro ministro japonês Toshiki Kaifu, o ex-presidente da Alemanha Richard von Weizsäcker, o ex-secretário geral da União Soviética Mikhail Gorbachev, e o ex-presidente dos Estados Unidos George H. W. Bush.

A música é dividida em duas partes: a primeira chamada “Rust In Peace”, e a segunda “Polaris”. “Polaris” foi o nome do primeiro projeto SLBM (Submarine-Launched Ballistic Missile – Míssil Balístico de Lançamento Submarino), liberado pela marinha estadunidense. Financiado e desenvolvido por volta dos anos 50 durante a Guerra Fria e tendo como intuito substituir o antigo míssil Regulus, tornou-se uma das mais importantes contribuições bélicas para os EUA desde então.

Se tem um disco que podemos considerar o Magnum Opus do Megadeth, com certeza ele é o “Rust In Peace”. Muitos, aliás, julgam essa obra como sendo a melhor de toda história do Thrash Metal, ao lado de “Master of Puppets” do Metallica, “Reign In Blood” do Slayer e “Among The Living” do Anthrax.
“Rust In Peace” é um quadro pintado com o mais alto nível de técnica, suas cores transpassam expressões fortes e de apego emocionais, causando inveja aos mais egocêntricos e orgulho aos mais observadores, além de servir de refúgio cultural aos admiradores da verdadeira arte chamada Heavy Metal.
Formação:Dave Mustaine (vocal, guitarra);
Marty Friedman (guitarra);
David Ellefson (baixo);
Nick Menza (bateria).


Malefactor: o contexto histórico existente na faixa “300 From Sparta”



O Malefactor lançou em 2003 um expressivo álbum intitulado “Barbarian”. O disco foi produzido por Jerônimo Cravo e conta com músicas pesadas e técnicas, destilando um Death/Black Metal digno de atenção, visto o capricho nas composições. “Echoes of Lemuria”, “Barbarian Wrath” e “Followers of The Fallen” são uns dos excelentes destaques. Ele ainda conta com um brutal cover da canção “A Touch Of Evil”, do Judas Priest, porém, em particular, hoje falarei da marcante faixa “300 From Sparta”.
A canção de pouco mais de quatro minutos retrata de forma musical a real batalha no desfiladeiro das Termópilas, entre gregos e persas. O confronto aconteceu por volta de agosto em 480 a. C. e ficou conhecido como a Segunda Guerra Médica.
A invasão, que partiu dos persas, foi um tipo de “resposta” contra a Primeira Guerra Médica, vencida pelos atenienses na batalha de Maratona. Xerxes, o então rei persa, que dispunha de um numeroso exército além de uma temida marinha, partiu então para sua ambiciosa “conquista”, porém, em resposta à iminente invasão, um general ateniense chamado Temístocles propôs que os aliados gregos anulassem o avanço do exército Persa em Termópilas, enquanto outros bloqueavam o avanço da marinha de Xerxes no estreito de Artemísio.

A aliança entre as pólis Gregas, deu a Esparta o comando da batalha, porém, devido a uns empecilhos burocráticos e religiosos, Leônidas, rei e general espartano, não pôde levar seu exército para a batalha. Sendo assim, Leônidas, que sabia da importância do combate, juntou sua guarda pessoal de 300 homens e partiu rumo ao estreito de Termópilas, com o intuito de retardar o avanço persa.
O exército de Leônidas dispunha de uma técnica de formação chamada “falange” (Phalanx), onde os soldados eram alinhados em colunas coesas, protegidos por escudos e lanças apontadas para frente. A falange era praticamente uma barreira virtual intransponível. Essa força, junto ao terreno estreito de Termópilas, anularia a vantagem numérica de Xerxes. Leônidas, além de seus bravos 300, também contava com o apoio de 7.000 soldados formados por aliados gregos. Xerxes, por sua vez, administrava uma massa colossal com mais de 300 mil homens.
Xerxes esperou quatro dias pela desistência dos espartanos devido sua minoria, porém, quando viu que ninguém estava disposto a sair de lá sem antes lutar, ordenou então um ataque. Durante a batalha, a falange espartana se portou intransponível. A técnica superior, somada à vantagem do terreno, acabou por dar uma incrível vitória aos 300 espartanos. Humilhado, Xerxes manda no segundo dia de luta seus melhores soldados: a elite persa denominada “Imortais”.
Mas a falange espartana mais uma vez se mostrou superior. Os soldados da elite persa caíram um a um, e mais uma vez, Xerxes observa seus soldados serem massacrados por “míseros” 300 homens. Ali, sobre o manto da derrota e da vergonha, Xerxes é agraciado com uma informação que daria fim ao exército de Leônidas: Ephialtes, um dos gregos, desertou para o lado persa e informou Xerxes de uma passagem alternativa por Termópilas. A passagem era uma antiga trilha de bodes. Sendo assim, os espartanos foram cercados e arrastados para uma pequena montanha, onde, enfim, foram mortos.
A música do Malefactor começa com um pequeno solo de bateria (detalhe para o efeito de ‘flanger’ no instrumento), então, um riff potente junto a um tapete de teclados climáticos enchem o ar, dando um toque grandioso a faixa. Após a mudança de ritmo, o canto se inicia de forma expressiva e por vezes narrativa, até explodir em um espetacular pré-refrão. A faixa descreve alguns dos acontecimentos históricos em Termópilas, e um exemplo é o trecho que cita o mês da batalha: “agora é agosto, a lua cheia está brilhando para nós, Xerxes está sorrindo”.
A bravura dos 300 de Esparta conseguiu causar um grande impacto sob as tropas de Xerxes, enfraquecendo vigorosamente a força invasora, tanto que, nas batalhas posteriores, os persas foram facilmente derrotados, tanto em terra quando em mar.
Existem alguns filmes que retratam esses acontecimentos. Um deles é “Os 300 de Esparta”, lançado em 1962. Contudo, creio que o mais conhecido por nossa geração seja o famoso “300”, lançado em 2007, co-escrito e dirigido por Zack Snyder, que trazia Gerard Butler no papel do rei Leônidas.

O filme recebeu críticas mistas. Alguns, aliás, acusam a obra de ser caricata. Porém, isso é devido a fonte “gráfica” usada por Snyder. O filme foi totalmente inspirado visualmente nas HQ’s de Frank Miller lançadas em 1998.
Compare algumas cenas:

A história dos 300 destila toda a perseverança e coragem em nome da liberdade. Leônidas e seus bravos 300 provaram para o mundo que a opressão e o misticismo podem sim ser combatidos de forma contundentes. Ali, no estreito de Termópilas, a história registrou uma batalha onde homens livres enfrentaram um poderoso tirano, que poucos enfrentaram muitos, e no fim, até mesmo um “deus rei” sangrou pela lança da esperança.
Vale muito apena conferir o disco “Barbarian” do Malefactor, e principalmente mergulhar entre os acordes de “300 From Sparta”, pois músicas assim são praticamente uma aula de história.


domingo, 31 de julho de 2016

Iron Maiden: a influência de Umberto Eco na canção “Sign of The Cross"


Recentemente o mundo da literatura ficou de luto devido à morte do grandioso escritor e pensador Umberto Eco, aos 84 anos. Eco, que nasceu em Alexandria, na Itália, foi uma das principais referências no estudo da semiótica, além de ter escrito vários romances aclamados pela crítica especializada – “Pêndulo de Foucault”, “A Ilha do Dia Anterior”, “Baudolino” e “O Nome da Rosa” entre eles.


Claro que um escritor deste calibre não poderia deixar de influenciar a música pesada. Um exemplo é a canção “Sign of The Cross” do Iron Maiden, que foi baseada na obra “O Nome da Rosa”, lançada em 1980.
O enredo se passa durante a Idade Média e gira em torno de investigações referentes a vários crimes cometidos dentro de uma abadia medieval. O frade franciscano Willian de Baskerville mais o noviço Adso de Melk são os responsáveis por estas investigações. Mesmo com uma forte resistência por parte de uns religiosos, os investigadores acabam descobrindo que a causa dos crimes são ligadas a existência de uma biblioteca que escondia obras apócrifas.

A música do Iron Maiden, referente a esta obra, abre o disco “The X Factor” de forma magnífica. “Sign of The Cross”, em seu tema inicial, traz cantos gregorianos nos remetendo aos monastérios da Idade Média. As primeiras frases cantadas por Blaze Bayley recitam de forma expressiva o ritual da “santa” inquisição, com onze homens, um após o outro, onde um à frente dos demais traz uma cruz levantada. Os homens estão ali para livrar o mundo de um pecador.
A letra não conta de forma narrativa a história do livro, mas sim faz um paralelo com ele. Num todo, o texto faz simples menções à obra de Umberto Eco, como por exemplo, no refrão, onde é cantada a frase “O sinal da cruz, O NOME DA ROSA, um fogo no céu, o sinal da cruz”.

O mundo do Heavy Metal sempre foi ligado à literatura mundial, e “Sign of The Cross” é apenas um dos inúmeros exemplos. Sendo assim, a morte de Umberto Eco também foi uma grande perda para nós, amantes do Heavy Metal, visto que nossa cultura sempre andou de mãos dadas com escritores deste porte.





Manowar: mitologia e música através da faixa “Achilles, Agony and Ecstasy In Eight Parts”


O Manowar lançou em 29 de setembro de 1992 seu sétimo álbum de estúdio, intitulado “The Triumph of Steel”. O álbum é uma verdadeira obra de arte que carrega músicas pesadas e de cunho grandioso. Ele, que traz em sua formação David Shankle e Rhino, dispõe de uma música “homérica” com mais de 28 minutos chamada “Achilles, Agony and Ecstasy In Eight Parts”, na qual falarei um pouco agora.
A música é dividida em oito partes (assim como sugere o nome), e é uma verdadeira aula de interpretação que discorre sobre a história mitológica de Aquiles, o guerreiro “Invulnerável”.
Aquiles era filho da ninfa Tétis e do rei dos mermidões, Peleu, e teve sua formação e treinamento junto a Quíron, o centauro, este que já teve como aprendizes, Hércules, Aristeu, Ajax e Teseu.


Sobre a “invulnerabilidade” de Aquiles, existem duas lendas referentes ao assunto. A primeira diz que Tétis, por não aceitar de forma alguma ter um filho mortal, colocou seu filho, ainda bebê, num poço com chamas mágicas. Segundo a lenda, essas chamas poderiam transformar qualquer humano em imortal. A métrica consistia em colocar diariamente uma parte diferente do corpo de Aquiles sobre as chamas, porém, quando faltavam apenas os calcanhares, Peleu viu a cena e tomou o menino das mãos de Tétis, fugindo com ele. Peleu julgou a cena como sendo uma tentativa de assassinato.  A segunda versão conta que Tétis tentava banhar Aquiles nas águas sagradas do Rio Estige, segurando o bebê apenas pelos calcanhares, porém, da mesma forma que a primeira versão, Peleu apareceu e levou a criança. Isso fez com que o Aquiles ficasse invulnerável, com exceção claro, de seu calcanhar.


Aquiles teve ligação direta na batalha entre gregos e troianos. Tudo começou quando a instabilidade politica na região tornou-se intensa. A guerra por si só era apenas uma questão de tempo. Para que isso acontecesse, faltava apenas um motivo relevante, e foi então que uma disputa entre as deusas, Afrodite, Atena e Hera serviu de estopim. As deusas queriam saber qual delas era a mais bela, então escolheram Páris como juiz, príncipe de Troia. Afrodite foi a vencedora do concurso após ter prometido a Páris a mulher mais bela do mundo, e para cumprir sua promessa, raptou Helena, a esposa do rei da temida Esparta, Menelau.
Troia, que era governada pelo rei Priamo e seus dois filhos Páris e Heitor, entrou em estado de alerta, já que após esse sequestro, a guerra contra Troia era inevitável.
Após algumas recusas por parte de Aquiles e de sua mãe referente a sua participação na guerra, uma conversa com o príncipe Ulisses acaba convencendo o guerreiro de lutar juntos aos Gregos.
Após meses de grandiosas vitorias onde Aquiles com poucos soldados aniquilava muitas cidades, territórios e bases militares dos troianos, uma desavença com Agamenon, rei de Micenas, faz com que Aquiles abandone os campos de batalha, o que deu uma extrema vantagem aos troianos.
Com as tropas gregas à beira da completa destruição, Pátroclo, que era o melhor amigo de Aquiles, decide liderar os mirmidões na batalha fingindo ser o próprio Aquiles, para isso ele vestiu a armadura e usou o carro de batalha de seu amigo. Pátroclo conseguiu expulsar os troianos das praias ocupadas pelos gregos, porém acabou sendo morto por Heitor.
Quando Aquiles sente falta de sua armadura, acaba descobrindo que seu melhor amigo foi morto por Heitor, então, para vingar a morte de Pátroco Aquiles volta a lutar contra os troianos, porém, agora para dar um basta definitivo na guerra.
A música do Manowar é referente a esta vingança de Aquiles, e sua crucial batalha contra Heitor:
Aquiles vai sozinho até as muralhas de Troia e desafia Heitor. Uma luta árdua é travada! Contudo, Aquiles, que carregava muito ódio em seu coração, atravessa uma lança na garganta de Heitor que morre na hora. Não satisfeito, amarra o corpo de Heitor em seu carro e arrasta o defunto durante nove dias pelos campos de batalha.

A música descreve poeticamente esse trecho da historia, dividindo em oito partes os acontecimentos:
“Prelude”
I. “Hector Storms The Wall” (HEITOR ASSALTA A MURALHA)
II. “The Death of Patroclus” (A MORTE DE PATROCLUS)
III. “Funeral March” (MARCHA FUNERÁRIA)
IV. “Armor of The Gods” (ARMADURA DOS DEUSES)
V. “Hector’s Final Hour” (A HORA FINAL DE HEITOR)
VI. “Death Hector’s Reward” (A RECOMPENSA DA MORTE DE HEITOR)
VII. “The Desecration of Hector’s Body (Pt. 1, Pt. 2)” (A PROFANAÇÃO DO CORPO DE HEITOR)
VIII. “The Glory of Achilles” ? (A GLORIA DE AQUILES)
Todas as oito partes são espetaculares, tanto em expressão quanto em execução. Dessas oito, três são instrumentais, no qual inclui solos de bateria e baixo.
Logo após a morte de Heitor, os gregos criam um plano para adentrar as muralhas de Troia. Construíram um gigante cavalo de madeira e deram como presente de paz para os troianos. O cavalo foi então posto pra dentro do reino, e quando a noite chegou, vários gregos saíram de dentro do cavalo, pegando todos de Troia adormecidos. Assim, abriram os portões para que mais soldados entrassem.

Os gregos, com esse golpe de inteligência, transformaram troia em um berço de sangue, vencendo a guerra. Todavia, nos últimos minutos do conflito, Páris atinge um flecha envenenada em um dos calcanhares de Aquiles, o que fez o lendário guerreiro morrer lentamente.


Por causa do conteúdo lírico contido na música do Manowar, a canção acabou atraindo a atenção de um grupo de pesquisadores da Universidade de Bolonha, na Itália. A professora de História Clássica Eleonora Cavallini escreveu o seguinte sobre a canção:
“A letra de Joey DeMaio implica numa cuidadosa e escrupulosa leitura da Ilíada. O compositor focou sua atenção especialmente na batalha crucial entre Heitor e Aquiles, e parafraseou algumas passagens do poema para uma estrutura melódica com certa fluência e parcialmente reinterpretando-a, mas nunca alterando ou distorcendo a história de Homero. O propósito da letra (e também da música) é evocar as características de alguns cenários homéricos: a tempestuosidade da batalha, a barbárie, a feroz exultação do vencedor, a tristeza e a angústia do lutador que pressente a morte sobre ele. Toda a ação se dá sobre Heitor e Aquiles, que são representados como personagens opostos, divididos por um ódio irascível e ainda assim unidos por um destino em comum. Ambos são retratados no momento da maior exaltação, enquanto regozijam sobre o sangue dos inimigos mortos, mas também de mais extrema dor, quando o demônio da guerra finalmente se apossa deles. Mais além, diferentemente do irreverente e iconoclasta Troia, a canção tem o divino como algo sempre presente, determinando os destinos dos humanos com ferocidade inescrutável, e apesar da referência genérica aos “deuses”, o verdadeiro mestre das vidas humanas é Zeus, o único deus ao qual tanto Heitor quanto Aquiles direcionam suas preces”.
— Eleonora Cavallini