quinta-feira, 1 de setembro de 2016

W.A.S.P.: o operístico conceito de “The Crimson Idol”


Mesmo que eu me debruçasse horas a finco sobre papéis, mesmo que os calos em minhas mãos recitassem poemas dolorosos através de minha escrita, jamais eu conseguiria expressar com palavras o que este álbum representa. Poderia usar a paixão de Shakespeare ou a profundidade de Dostoiévski e mesmo assim seriam palavras rasas perto do oceano chamado “The Crimson Idol”.
A vida em suas infinitas tragédias anseia por uma explicação satisfatória em relação ao amor, mas como exprimir tal sentimento num lar onde você é rejeitado pelos próprios pais? A faceta dolorosa desta questão torna-se uma guilhotina silenciosa, e a única saída é o sofrimento.
Assim é a história de Jonathan Aaron Steel, um jovem rejeitado pelos pais que via seu irmão Michael ser idolatrado pelo pai Willian (chamado por ele de Red), enquanto procurava carinho nas poucas migalhas que lhe era oferecido.
O pai de Jonathan via em seu irmão tudo que ele esperava e sonhava de um filho, porém, em Jonathan, Willian não via absolutamente nada.
O álbum começa com uma linda introdução chamada “The Titanic Overture”, que serve de trilha para o nosso protagonista que parado em frente a um espelho recita versos abrangentes de angustia e dor:
“Eu olho no espelho… E não compreendo… Não me sinto como um menino, e, ele não está mais desobstruído… Mas eu não me sinto em momento algum como um homem”.
Jonathan faz do espelho seu melhor amigo, ali ele via refletido todas as suas ilusões e tristezas por ser rejeitado. Neste ponto, ele sente nascer em seu íntimo o “calor” do rock, uma sinergia poética é despejada sobre o manto de sua percepção, um adolescente de 17 anos que sabia sem pautas ou mentiras que seu pai jamais dividiria junto a ele os seus sonhos.
“Eu tenho dezessete anos… Sou um filho de alguém… Mas meu pai sequer sabe onde eu estou. Pois, quando ele me olha, ele detesta simplesmente o que vê. Ele não sabe quem eu realmente sou”.
“The Titanic Overture” carrega em seu tema musical frases que serão usadas em outras músicas, uma composição linda que traz um riff introspectivo digno de tragédias shakespearianas, ranhuras gravadas a ferro que descreve através de impactantes acordes a dor do nosso herói natimorto.

THE INVISIBLE BOY
A faixa inicia-se  narrando de forma retrospectiva o drama da vida de Jonathan.
Crianças sempre brincam de super heróis e inventam fantásticos poderes, como por exemplo, a invisibilidade, porem a primeira narrativa de sua infância demonstra com tristeza esse “poder” da invisibilidade, ele era indesejado, rejeitado e esculachado, um garoto invisível perante seus familiares. Jonathan via seu irmão levar créditos por tudo, enquanto que para ele o carinho vinha em forma de “cintadas”, ali sobre a condição de uma criança indefesa ele apenas se pergunta o porquê disso tudo.
“Eu era o garoto indesejado… um prisioneiro…  Meu irmão era o único… (…) e, eu estava lá, falecendo sob a sua sombra”.
“Sinto a cinta atravessar as minhas costas… Sim, eu sou o ‘novo garoto chicoteado’. Quem sou eu – O filho órfão de quem você nunca precisou? Quem sou eu? Porque eu sou o garoto que apenas o espelho vê… Quem sou eu? O escravo a quem você deu apenas o ar que eu respiro? Quem sou eu? Porque eu sou o garoto que apenas o espelho consegue enxergar”
A música é estupenda e traz toda característica do W.A.S.P. em seus acordes de angustia, fazendo o ouvinte mergulhar de cabeça sobre as águas da vida de Jonathan. Nas frases finais, ele recita seu triste bordão: Is there no love to shelter me?

ARENA OF PREASURE
Apesar de tudo Jonathan não odiava seu irmão, na verdade ele o amava muito, é ai que o trágico toque do destino ceifa a vida de Michael. Com apenas 14 anos de idade, o “garoto chicoteado” perde seu irmão num acidente de carro, o motorista bêbado atropela fatalmente seu amado irmão, deixando a família em torpor.
Chocado, o garoto chicoteado não consegue extrair forças para enfrentar as facetas do funeral, isso fez com que seus pais o renegassem ainda mais.
Os anos de sofrimento prosseguem intransponíveis, então ele decide fugir de casa para viver na “arena do prazer”, ali em meio à “liberdade”, Jonathan assiste a inúmeros concertos de Rock.
“Eu fugi de casa na noite passada, para sempre… Eu corria em nome da minha vida. E então, eu ouvi as palavras sobre quem eu poderia ser… Viver, trabalhar, morrer… Eu sou o órfão da noite… Derrubem-me! Eu estou voltando para casa… a estrada para as ruínas, dentro da cúpula prazer… Derrubem-me! Eu estou voltando para casa… a arena dos prazeres… onde eu pertenço”
Na “arena dos prazeres” nosso “herói” sente que seu destino esta atrás das seis cordas, o toque do Rock faz ali sua equação.
Agora com 16 anos, seu sonho é tornar-se um discípulo da “arena do prazer”, assim ele se via grandioso na terra prometida.

CHAINSAW CHARLIE (MURDERS IN THE NEW MORGUE)
Jonathan tinha em suas veias algo mais que sangue, ele tinha o talento e o feeling para ser um representante do rock, de suas vísceras furtivos e inspirados poemas eram executados e musicados. Era nítido que o distinto garoto com sua guitarra vermelha carmesim logo ganharia notoriedade junto à banda que montou. sendo assim, o talento e busca de Jonathan chama então a atenção de Charlie, dono da gravadora Morgue, esta que tinha um “dileto” apelido de Motosserra.
Nesta música, Lawless despeja toda sua repulsa em relação aos sanguessugas das gravadoras, o frontman nunca escondeu que este personagem (Charlie), era uma alusão ao dono da Capitol Records.
Charlie encontra Jonathan sedento por fama e com suas palavras “sedutoras” oferece a ele um contrato:
“Aqui está o seu contrato… você irá apostar com a sua vida? Assine sobre a linha pontilhada… a única pela qual você esperou por toda a sua existência”
Charlie via naquele garoto uma oportunidade. Em seu íntimo o empresário não gostava do mundo da música, seu prazer era apenas em “desossar” pessoas, pra ele os músicos eram cordeiros, e sua gravadora um abatedouro sem escrúpulos.
Em minha opinião Chainsaw Charlie (Murders In The Rue Morgue) é uma das maiores composições do W.A.S.P., visto que a crítica massiva em relação as gravadoras que roubam e dessecam seus contratados é uma total realidade por muito escondida, o sarcasmo por deveras lírico e grandioso demonstra com nitidez o circo de hipocrisia existente no mundo musical.
A capa deste single é espetacular, trazendo a imagem da sala de Charlie com vários discos de ouro na parede, sobre a mesa, uma ossada com a motosserra cravada sobre ela.
No refrão da música existe uma excelente referência em relação aos discos de platina tão desejados, o exército de platina representa a equipe de Charlie que agora transformava Jonathan em um dos seus “garotos”.
“Assassinatos, assassinatos na nova MorgueAssassinatos, assassinatos na nova MorgueVeja o velho Charlie e os exércitos de platinaFazendo-me seu garoto”
Charlie inescrupuloso despeja toda a sua impiedade e mentiras em nome do dinheiro:
“Bem-vindo ao meu necrotério, garoto… (…)… Eu vou cortar sua garganta, apenas para permanecer vivo… (…)… Se você confiar em mim, filho, você certamente não durará muito tempo. Eu sou o presidente do showbiz… meu nome é Charlie. Aqui, da torre da minha própria Hollywood, eu dito as regras… eu sou um filho da mãe mentiroso… e a motosserra é a minha ferramenta. O novo necrotério é a nossa fábrica (de discos), a graxa são as nossas mentiras. Nossa máquina está faminta… ela precisa de sua vida”
Estupendo é pouco para descrever com precisão este épico.

HE GYPSY MEETS THE BOY
Jonathan começa a se tornar um grande astro, seus passos agora eram sob o chão dourado da fama, e num momento típico de misticismo, ele é abordado por uma cigana que propõem ler seu futuro através de cartas de tarô. Como recusar esse tipo de oferta?  A sorte o abraçava fortemente, ele estava feliz demais para recusar.
A cigana então joga as cartas e de pronto diz uma frase enigmática:
“A face da morte usa a máscara do rei da misericórdia”
A analogia da frase fica em torno da carta tirada, um rei. Quando Jonathan pergunta se realmente aquela “visão” era verdadeira, a cigana vai embora e deixa com ele as cartas de tarô junto às seguintes frases:
“Cuidado com o que tu desejas… poderá tonar-se realidade”
  A partir dali, um temor torturante começa a tomar conta de seus passos.
“Então a ilusão era real, um ídolo rubro eu vi, mas o quão alto ele voa, de mais alto ele cai”
Por fim, mesmo consciente dos perigos em desejar, Jonathan através de suor e medo recita um canto repleto de um tocante e tangente desejo:
“Eu só quero ser… o ídolo rubro entre milhões de olhares”

DOCTOR ROCKETER
A fama traz consigo as costumeiras mulheres, bebidas e drogas. Jonathan torna-se um viciado, Doctor Rockter era o responsável por alimentar suas “viagens”, Jonathan enaltecia o médico traficante e o considerava um amigo:
“Ele é o rei da picada, o Senhor Morfina, o meu amigo. O Tio Sam, o curandeiro; e eu sou um viciado com o porte de um grande King Kong, rastejando para cima e para baixo as minhas costas”
É claro que Doctor Rockter agradecia e “admirava” seu cliente:
“Oh, eu irei ajudá-lo neste momento, meu amigo. Mas você precisa comprar. Afinal, eu sou o seu médico”
Entre as “viagens” e torpores da droga, Jonathan já nem mais se lembrava de seu sofrimento, seus anestésicos eram potentes e ilegais, totalmente patrocinado pela fama.

I AM ONE
A música inicia-se com Jonathan dando boas-vindas aos fãs em torno do mundo:
“Hello, New York City! Hello, Dallas! Hello Los Angeles, California! Tokyo! Rio de Janeiro! ( …)”
Ele conseguiu, se tornara o ídolo rubro, ele era o único. Jonathan carrega seus dias como rosas sangrentas, 18 delas, uma para cada ano de sua vida.
Mesmo imerso em fama e dinheiro, mesmo entorpecido por drogas, ele sempre lembrava de sua mãe, seus delírios sagazes recitam gemidos murmurantes em forma de canto:
“Mamãe, olhe o que me tornei… Será que ele me levará para baixo da forca? E matará o menino dentro do homem?”
O homem ainda trazia dentro de si aquele menino, o musico rico ainda exprime os lamentos de sua infância:
“Is there no love shelter me? Only love, love set me free”…



THE IDOL
O ápice do álbum chama-se “The Idol”, e transcreve perfeitamente o dilema da vida de Jonathan.
A obra de arte começa com o áudio de uma festa, onde managers, colegas de banda e mulheres falam e se divertem, ali em meio às sanguessugas, Aaron Steel faz uma autoanálise e indaga sua fama e sentimentos internos.
Em certo ponto da festa Alex Rodman (seu empresário, também um sanguessuga), expulsa os convidados, é neste epicentro que começa umas das melhores composições da década de 90, a obra de arte máxima de Mr. Blackie Lawless.
Bêbado, Jonathan acaba pegando o telefone para ligar pra sua mãe, quando ela diz “alô?” a música começa (detalhe para as batidas de seu coração), os toques sepulcrais de guitarra enchem o ar. Jonathan em meio a torturante angustia da rejeição começa a dizer:
“Estarei eu sozinho esta manhã?Precisarei de meus amigos?Alguma coisa para aliviar a minha dor……Ninguém percebe a solidão por detrás de minha faceEu sou apenas um prisioneiro da minha fama…
A música então ganha um inspirado e triste violão, assim se inicia o momento único da obra de arte, assim se inicia o ultimo contado de Jonathan com sua mãe…
Se eu pudesse somente permanecerE olhar para dentro do espelhoO que eu poderia ver?Um herói sucumbido com uma face igual a minhaE seu gritasse alto, alguém me ouviria?E se eu rompesse o silêncio, você veria o que a famaFez comigo……Beije ao longe a dor… E, deixe-me sóEu nunca saberei se o amor é uma mentiraSer insano em meio ao paraíso é fácilVocê vê os prisioneiros por entre meus olhos?Onde está o amor pra abrigar-me?Dê-me amor, amor deixa-me ser livre!Onde está o amor para abrigar-me?Somente o amor, me deixa ser livre!”
Sem palavras, “The Idol” é estupenda e magnânima, a obra em sua forma mais poética e brilhante, um poema escrito com lagrimas, um canto expressado com o próprio ar da vida.
O triste ato termina com a mãe do “astro” fazendo de suas palavras uma guilhotina:
“Nós não temos filho” (e desliga o telefone)
A canção termina com Jonathan sob o palco procurando afago para o seu coração dilacerado pelo telefone, quem sabe seus fãs e tantos outros que o idolatram possam confortar sua dor.




HOLD ON TO MY HEART
Junto a “The Idol”, “Hold On To My Heart” foi um dos mais lindos singles já gravados. Um envolvente violão, quase que uma epopeia sentimental, o trabalho acústico destas músicas são por deveras incríveis, sem complicações técnicas, porém com um feeling INACREDITÁVEL!
Ciente de sua condição e com uma voz turva e triste, Jonathan necessita continuar, um show o aguardava, quem sabe se tocando mais uma vez ele alcance a libertação daquele peso maçante que o consumia homeopaticamente.
“Há uma chama, uma chama em meu coração… E não há chuva que possa apagá-la… (…)… Então apenas me abrace… Tire a dor de dentro da minha alma… E eu estou com medo, assim tão só… (…)… E não, não me deixe ir por tudo que eu sou… Coloque em suas mãos, e, me abrace. E eu farei isso por entre o anoitecer. E eu ficarei bem… Agarre-se, agarre-se em meu coração”



THE GREAT MISCONCEPTIONS OF ME
Chega a hora do momento máximo do álbum. Jonathan se dirige ao público num momento último e anuncia:
“Bem vindos ao show, o grande final, terminantemente aqui. Eu agradeço a vocês por virem no meu teatro de medo. Bem-vindos ao show, vocês são todos testemunhas, vocês assistem a um convite privilegiado para minha extrema-unção”
Abre se as cortinas de sua “extrema unção”, os fãs não imaginavam o que estavam prestes a presenciar, a tragédia grega que soluçava seus versos estava agora sendo executada com precisão cirúrgica.
Num momento de delírio Jonathan fala a sua mãe:
“Se lembra de mim? Você não pode me salvar. Mamãe, você nunca precisou de mim… (…)… Olhe nos meus olhos, você verá… Mamãe, eu estou sozinho, sou apenas eu… sou apenas eu”
A dor era muita, os rastros de sua vida foram um engano, do que serve a vida? Se apenas o sofrimento era o que ele poderia beber no cálice da esperança. Neste momento ele percebe que sua fama não lhe trouxe nada, ali perante seus fãs ele percebe que nem mesmo todo dinheiro do mundo compraria o amor que tanto sonhou, ali perante aos seus fãs Jonathan se arrepende do que desejou:
“Eu não quero ser, eu não quero ser, eu não quero ser o ídolo rubro de um milhão de pessoas… (…)… Eu sou um prisioneiro do paraíso que eu sonhei… O ídolo de um milhão de faces solitárias olhando para mim. Por trás da máscara da tristeza, quatro portas da perdição para além dos meus olhos… Eu tenho suas pegadas todas através de minha mente rubra”
As quatro portas da perdição é a representação simbólica dos quatro sentimentos que moldavam a sua personalidade. Depressão – sua inimiga, Medo – seu amigo, Ódio – seu amante e Fúria – seu combustível de vida.
Jonathan estava agora à beira de seu precipício pessoal, então num momento espiritual ele invoca o rei da misericórdia para saudá-lo:
“Vida longa, vida longa ao Rei da Misericórdia!!”
A questão tão propagada durante o disco todo volta, porém agora com um ar de afirmação:
“There is no love to shelter me! Only love, love set me free!”
Não, não existia amor, para Jonathan jamais existiria amor, chega à hora então do seu fim comungado, imerso em tristeza, o homem amargurado prepara o seu suicídio:
“Vivendo na luz do palco, eu pouco percebia… Eu estava morrendo nas sombras e o espelho era minha alma. Era tudo o que eu queria tudo o que eu sonhei; mas o sonho tornou-se o meu pesadelo, e, ninguém pôde me ouvir gritar. Com estas seis cordas eu preparo uma armadilha para tirar minha vida. Chegou à hora de escolher a manchete do meu falecimento, do meu suicídio.”
Sendo assim, ele faz uma forca com as cordas da guitarra, porem antes de seu ato final, o herói caído confessa que seu ídolo sempre foi seu pai, o verdadeiro ídolo rubro era Willian:
Oh doce silêncio, onde está a agulha?Eu não sou um ídolo, nenhum rei rubroEu sou o impostor, o mundo viuMeu pai era o ídolo, nunca fui euEu não quero ser, eu não quero ser, eu não quero serO ídolo rubro de um milhãoEu não quero ser, eu não quero ser, eu não quero serO ídolo rubro de um milhão de olhosSem amor para me abrigar, apenas o amorO amor me libertaSem amor para me abrigar, apenas o amorO amor me liberta
Um momento impar na história do Rock, uma música mais que épica, mais que uma epopeia, uma poesia onde acordes e riffs servem de base para um enredo magnificamente escrito.
Assim a morte chega a Jonathan, através das cordas que transformaram o garoto em um ídolo, uma simbologia fantástica onde o instrumento da busca monetária, transforma-se numa forca para o seu suicídio.

Friedrich Nietzsche dizia que:
“Temos a arte para não morrer da verdade”.
Concordo com ele. Essas máximas são uma constante no meio artístico real, e foi através delas que Blackie Lawless escreveu essa obra-prima metálica.
Jonathan Aaron Steel pode ser visto através dos olhos de milhares de crianças que são rejeitadas pelos pais mundo afora. A representação pragmática de sua vida é apenas um reflexo da tragédia real que muitos passam, porém poucos conhecem.
Ouça a história de Jonathan narrada por Blackie Lawless:

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Iron Maiden: nado sincronizado ao som de “The Trooper”


É inegável que o Iron Maiden se protagoniza entre uma das bandas mais populares do mundo, tanto que sua arte sempre acaba influenciando outros gêneros artísticos. Prova disso foi a recente apresentação da dupla eslovaca Jana Labáthová e Nada Daabousova na disputa dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.
As competidoras de nado sincronizado usaram como trilha para sua coreografia uma versão do clássico “The Trooper” gravada pelos violoncelistas esloveno-croatas, Luka Šulić e Stjepan Hauser. A dupla em questão compõem um grupo de Cello Rock chamado 2Cellos, que ficou bastante conhecido por uma releitura muito empolgante de “Thunderstruck”, do AC/DC, que já tem mais de 63 milhões de views no seu canal do YouTube.
A apresentação das eslovacas foi muito empolgante e aconteceu no início das competições de nado sincronizado dos Jogos Olímpicos. 
Ouça na íntegra a versão de “The Trooper” gravada pela dupla do 2Cellos:
Vale lembrar que essa não é a primeira vez que o Rock deu as caras nesta modalidade. Em 2009, na Olimpíada Mundial de Jogos Aquáticos, a Espanha se apresentou ao som de “Stairway To Heaven”, do Led Zeppelin:

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Black Sabbath: conheça o filme que deu origem ao nome da banda


Segundo o dicionário Webster 1828, a palavra “nome” significa a reputação de alguém, o carácter, autoridade e uma pessoa. Desde tempos remotos, damos nomes às coisas. Damos nomes para representar algo e também para descrever algo. O ato de nomear, seja objetos ou pessoas, está ligado diretamente à nossa evolução, já que de forma inteligente e única, conseguimos descrever através de palavras a representação daquilo que vemos, tocamos e até sentimos.
O nome não é uma peça importante somente na certidão de nascimento, mas também em todo meio de comércio e propaganda, tanto que empresas travam longas batalhas judicias para defender a patente de sua marca. No mundo da música não é diferente: a escolha do nome e de extrema importância na criação de uma banda, já que ele transcende a marca em si, pois também acaba direcionando a temática e o estilo que a banda vai seguir.
Em 1966, os músicos Ozzy Osbourne (ex-Rare Breed), Bill Ward (ex-Mithology), Geezer Butler (ex-Rare Breed), Tony Iommi (ex-Mithology) e Jimmy Phillips deram início a um projeto chamado “Polka Tulk Blues Band”, que posteriormente contou também com o saxofonista Alan “Aker” Clarke. Após algumas apresentações, Clarke e Phillips decidem sair do grupo, foi então que os membros remanescentes decidem trocar o nome da banda para Earth.

Durante um curto período tempo, o Earth desbravou pubs e casas de shows variados, até que descobriram que outra banda se apresentava com o mesmo nome, sendo assim, optam por mais uma mudança, e a escolha desta vez ficou com o epíteto Black Sabbath.
A ideia partiu de Butler. O baixista se inspirou no filme italiano “I Tre Volti Della Paura” (As Três Máscaras do Terror). O filme dirigido por Mario Bava lançado em 17 de agosto de 1963 traz um horror clássico de primeira linha, e contém três contos:
“The Telephone” (O Telefone), “The Wurdalak” (O Wurdalak), e “The Drop of Water” (O Pingo D’água), todos baseados nos textos dos escritores Aleksei Tolstoy, Ivan Chekhov e F.G. Snyder.
Em “O Telefone”, uma garota de programa é atormentada por ameaças de um ex-amante que fugiu da prisão. A trama envolve assassinatos toscamente consumados por estrangulamento com uso de meias calças, além da clássica e boa faca escondida debaixo do travesseiro.

Já em “O Wurdalak”, uma família aguarda o retorno do patriarca. O problema é que ele foi contaminado por um vampiro. A história se passa no interior da Rússia e mostra o terror da família que tenta livrar-se do conde do século XIX.

Pra finalizar, “O Pingo D’água” traz o espírito de uma condessa que volta do além para cobrar um anel que lhe foi roubado nos preparativos de seu funeral.

O filme, que é apresentado e estrelado pelo lendário Boris Karloff, foi exibido nos EUA e Inglaterra com o nome de Black Sabbath. Quando a banda caminhava pelas ruas de Hamburgo, notaram que um cinema local estava com uma fila enorme. Ao descobrirem o nome do filme, Geezer Butler de pronto propôs usar o título da película para nomear o grupo.

A palavra “Sabbath” (sábado) tem algumas simbologias diferentes. No geral, ela representa um dia semanal de descanso e adoração a uma divindade. Muitas religiões adotaram o conceito e o praticam de acordo com suas cresças. A tradição judaico-cristã, por exemplo, usa o termo para designar o último dos dias da criação, no qual Deus descansou. Na bruxaria, o Sabbath é um momento de comunhão religiosa, onde se pratica através de uma celebração a comunicação com seres espirituais. Existem oito Sabbaths celebrados a cada ano pelos bruxos, no qual os quatro principais são o Imbolc (Candlemas), o Beltane, o Lammas (Lughnassad) e o Samhain.




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Resenha: Basttardos – O Último Expresso (2015)


No século XIX, precisamente entre os anos de 1860 a 1890, durante a expansão da fronteira dos Estados Unidos para a costa do Oceano Pacífico, vários acontecimentos e lendas cercaram este período que ficou conhecido popularmente como FAROESTE. Entres os personagens históricos desta época temos os famosos “Touro Sentado” e “William Cody”, o famoso Buffalo Bill.
A riqueza artística figurada neste oeste selvagem, foi amplamente explorado por filmes, livros e até mesmo Gibis, transformando o período num dos mais populares.
Formado em 2010, a banda Basttardos do rio de Janeiro escolheu como base fotográfica e musical este clima típico. O grupo lançou em dezembro de 2015 o petardo “western”, O Último Expresso, o álbum em questão traz uma produção excelente, e músicas bem compostas, todas polidas com técnica e sentimento.

O álbum abre com a viciante BASTTARDOS. Com uma introdução digna dos filmes de Django, a música é uma apresentação da banda, que de forma criativa, faz uma analogia entre o grupo e o faroeste. A faixa traz de forma peculiar alguns questionamentos relevantes, como por exemplo nas frases do refrão:
“Sem medo de ter medo, o legado importa mais (…) “Procurados”, como cowboys fora da lei”
A questão do medo a muito é estudada por diversos professores em torno do globo, aliás, existe um livro chamado “SEM MEDO DE TER MEDO”, escrito por TITO PAES DE BARROS NETO que trata de forma contundente esse assunto. Outro ponto a ser mencionado, é o fato dos “fora da lei”. Nicolau Maquiavel, dizia que nunca faltará ao príncipe razões legítimas para burlar a lei, e que, é mais seguro ser temido do que amado, desta forma, creio que os temidos cowboys adversos as leis do velho oeste, corroboram ideologicamente (em parte claro), com o pensamento do historiador, poeta, diplomata e músico italiano.
As frases finais da música, “para viver fora da lei, é preciso ser honesto”, junto a máxima do álbum “o legado importa mais”, são de profundidades poéticas e filosóficas. Como vários princípios são invertidos em nossa sociedade atual, o contexto corrobora com a ideia de William Shakespeare que dizia: “Não há legado mais rico que a honestidade”.

É indiscutível a qualidade técnica dos “elementos”, tanto que o álbum mantem o alto padrão durante todas as cinco faixas. Energicamente inspirado, o disco é carregado de climáticos e adversos momentos, um exemplo desta alquimia é a faixa DESPERTAR DO PARTO. Com um solo introdutório cheio de emoção, a composição mais bonita do disco retrata o nascimento do filho de Alex Campos (vocal e guitarra), a faixa faz um contraponto entre a emoção de ser pai e o amor que o vocalista sente pelo próprio pai, a música é uma excelente homenagem as geração paternas de uma família.

Talvez a música mais pesada a saltar dos vagões do último expresso, seja a EXILADOS. Com um vocal mais agressivo (se comparado as canções anteriores), EXILADOS despeja riffs potentes e uma letra que podemos julgar como sendo sobre integridade.
O questionamento proposto pela banda nesta faixa, trata de forma carrancuda a falsa moral julgadora. Sabemos que o caráter muitas das vezes é imposto por nosso meio de convívio, porém, nem todos se rendem a essa “imposição”: “Não barganho minha confiança, enfie na boca esse dinheiro” (…) “quem você era antes do mundo dizer quem você deveria ser?”
A Basttardos, que é formada por Alex Campos (vocal e guitarra) e Bernardo Martins (bateria), tem como baixista uma misteriosa figura denominada Terceiro Elemento. O personagem tem características psicóticas e doentias, dignas de um serial killer. A persona tem sua faceta destacada na última faixa do disco chamada TERCEIRO ELEMENTO.
A música em minha opinião é a mais expressiva do álbum, portando-se caprichada e inspirada durante todo o decorrer de seus mais de sete minutos. Uma curiosidade da faixa, é a participação do filho de Alex Campos que narra: cuidado! Ele está atrás de você.

O Último Expresso é sem dúvida nenhuma um dos melhores discos nacionais de rock lançados atualmente, é notável a entrega e alma nas composições, músicas coesas pinceladas com climas do velho oeste, transformam o segundo registro do “bando” num deleite musical.
Altamente recomendado.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Resenha: Project Black Pantera – Project Black Pantera (2015)



A história da humanidade é coberta por inúmeros atos cruéis e preconceituosos, fatos estes que posso enumerar facilmente visto nossa vasta ignorância e preconceito. Inquisição, guerras mundiais, corrupção e escravidão mancham de sangue nossos livros de história, transformando nossa raça em uma das mais violentas dentre os animais.
A música, em especial o Rock/Metal, sempre foi libertária e contrária a estes tipos de opressões. Desde o período clássico, a música vem expressando nossos descontentamentos, seja eles a favor ou contra o ponto central da questão. O fato é que não tem diferença entre Mozart e Steve Harris, visto que ambos pavimentaram suas músicas através do concreto cultural e expressivo de nossa humanidade.
Formada em 2014, a banda Project Black Pantera, provinda de Uberaba (Minas Gerais), também escreve suas músicas com esse lado expressivo de nossa história, tanto que o nome da banda tem ligação cultural com o partido dos Panteras Negras.
O partido dos Panteras Negras, que foi fundado em 1966 na cidade de Oakland, Califórnia, foi uma organização política extraparlamentar socialista revolucionária norte-americana ligada ao nacionalismo negro. O objetivo do grupo, no princípio, era patrulhar guetos negros para proteger a população dos atos de brutalidade por parte da polícia, no qual eles acusavam de ser racista. Após o crescimento do grupo, os Panteras Negras adotaram uma filosofia revolucionária e marxista que defendia o armamento dos negros, além de exigir a isenção dos impostos e de todas as sanções da então chamada “América Branca”. Lutavam também pela libertação de todos os negros da cadeia, e tentavam forçar o governo a pagar indenizações por “séculos de exploração branca”.

O debut autointitulado do power trio é simplesmente espetacular, e assim como o programa dos dez pontos dos Panteras Negras, onde o grupo listava pontos que desejavam e acreditavam, o disco veio com exatas 10 faixas, mais dois bônus.
O álbum abre com um soco na cara chamado “Boto Pra Fuder”. A canção é direta e pesada. O baixo distorcido faz uma ótima base para o canto que arrebenta. Tanto a “Boto Pra Foder” quanto a segunda faixa, “Ratatatá” (que por sinal tem ótimos slaps), são de cunho viciantes e empolgantes.
Todas as faixas do disco são de um estilo muito particular, tanto que não consigo rotular o trabalho do Project Black Pantera – somente que é uma variação de Thrash, Hardcore, Punk e Crossover. Mesmo cantado em português, a banda tem um leque de críticas favoráveis em países como França e Estados Unidos, mostrando a força artística do grupo.
A parte gráfica e física do CD são bem criativas. A logomarca, composta por Rauy Cardoso, junto das imagens feitas por Andreza Rodrigues, são marcantes e dão seriedade ao trabalho. Uma foto que me chamou a atenção é uma onde os membros estão de punhos erguidos. Esse gesto (raised fist) é um símbolo dos Panteras Negras. Na Olimpíada da Cidade do México em 1968, Tommie Smith e John Carlos, atletas afro-americanos, fizeram essa saudação durante a cerimônia de premiação da modalidade, após vencerem os 200 metros rasos, por julgar o ato dos atletas como sendo uma manifestação política, ambos foram banidos dos Jogos pelo Comitê Olímpico Internacional.

O álbum segue com a monstruosa instrumental “Godzilla”, esta que abre caminho para uma das melhores faixas do disco, “Eu Sei”. Sendo intencional ou não, a letra de “Eu Sei” retrata um pouco o pensamento da ala mais radical do movimento dos Panteras Negras, que defendia a luta armada e pregava que o governo branco omitia a verdade e vendia uma falsa visão de paz e igualdade:
“Omitem a verdade, eu sei, paz e igualdade, pra quem? Quer cair pra dentro, então vem!”
A ferocidade continua com a faixa “Rede Social”, onde a banda destila críticas a indivíduos que abusam das redes sociais de forma politicamente incorreta. A canção tem um groove marcante e pavimenta o caminho para a música mais Hardcore do disco, “Abre A Roda e Senta O Pé”, que é um convite irrecusável ao moshpit; destaque para o solo de baixo executado com muita pegada por Chaene da Gama ao 1:48 minuto.
“Execução Na Av. 38” e “Manifestação” são dignas de aplausos, o Thrash/Crossover com pitadas de Hardcore são muito bem amalgamados, mostrando toda a capacidade inovadora do grupo. Nos bônus, podemos encontrar uma versão em inglês para “Manifestação” e uma mixagem diferente para a “Execução Na Av. 38” feita pelo site norte-americano Afropunk, contendo a participação do rapper J. Cole.
Simplesmente matador esse primeiro trabalho do Project Black Pantera! Músicas agressivas e bem compostas junto ao verniz histórico dos Panteras Negras faz deste debut uma obra de arte. Para encerrar, vou deixar aqui as frases finais recitadas por Charles Gama na música “Escravos”:

“Todos nós nascemos livres e assim tem de ser,
Mas a prisão ainda existe, até um cego pode ver
Todos nós somos iguais, somos todos filhos de Deus
Tanta guerra não traz paz, a cor do teu sangue é igual ao meu.”

Integrantes:
Charles Gama (guitarra/vocal);
Chaene da Gama (baixo/vocal);
Rodrigo Pancho (bateria).
Faixas:
01 – Boto Pra Fuder
02 – Ratatatá
03 – Godzilla
04 – Eu Sei
05 – Rede Social
06 – Abre A Roda e Senta O Pé
07 – Execução Na Av. 38
08 – Manifestação
09 – Ressurreição
10 – Escravos
Bônus:
11 – Manifastation
12 – Execução Na Av. 38 feat. J. Cole (Mix By Afropunk)


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Saxon: o blackout que rendeu um clássico


Um dos maiores clássicos da carreira do Saxon, “747 (Strangers In The Night)” é uma das mais fortes e significativas composições do álbum “Wheels of Steel”, lançado em 5 de maio de 1980. A faixa, que além de ser inspirada e técnica, conta ainda a real história ocorrida durante um blackout que assolou os EUA e Canadá.
No dia 9 de novembro de 1965, numa terça-feira, uma significativa interrupção no fornecimento de eletricidade em Ontário no Canadá e Connecticut, Massachusetts, Nova Hampshire, Rhode Island, Vermont, Nova York e Nova Jersey nos Estados Unidos deixou cerca de 30 milhões de pessoas e 80 mil milhas quadradas (207 mil km²) sem energia elétrica.
No mês de novembro, as noites frias são mais severas nestes países, e comumente o uso de aquecedores, iluminação e eletrodomésticos dobram, porém naquela semana acabou-se consumindo mais energia do que o previsto. As equipes de manutenção elétrica não haviam liberado energia suficiente para a população, empurrando o sistema elétrico para perto de sua capacidade máxima, fazendo com que as chaves de segurança da estação se desligasse por sobrecarga.

O apagão, que durou cerca de 12 horas, afetou vários serviços, incluindo estações de rádio e TV. O blackout ainda favoreceu criminosos que saquearam e cometeram crimes variados. Porém um drama pouco mencionado é referente a um voo da Scandinavian Airlines, e é através deste acontecimento que a canção “747 (Strangers In The Night)” desdobra-se.
A faixa menciona o voo “Scandinavian 101” no entanto, o fato ocorreu com o voo 911 da Scandinavian Airlines. Devido ao apagão, o aeroporto “John F. Kennedy” (Nova Iorque), ficou totalmente invisível ao piloto, impossibilitando o avião de pousar. Sendo assim, o 747 voou até que seus tanques reservas ficassem abaixo do nível de segurança, transformando seus tripulantes em verdadeiros “estranhos na noite”. O fato causou uma grande revisão na segurança das aeronaves referente aos tanques de combustíveis reserva, já que nestas condições uma queda seria inevitável.

“747 (Strangers In The Night)” é um clássico absoluto do grupo, tanto que até hoje a canção faz parte do repertorio da banda em seus shows. Além de contar com bastante expressividade o ocorrido com o Scandinavian Airlines, a faixa ainda tem um refrão climático e instrumentais inspirados, figurando-se numa das músicas  mais marcantes na história do Saxon.