segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Iron Maiden: análise temática do álbum “The Book of Souls” (Parte 2)


Dando continuidade à análise temática do álbum “The Book of Souls”, do Iron Maiden, vamos visitar agora o tema faixa a faixa do segundo disco desta magnífica obra de arte.

Death Or Glory
Escrita por Adrian Smith e Bruce Dickinson, “Death Or Glory” abre o segundo disco do álbum trazendo uma incrível homenagem ao piloto alemão Manfred Von Richthofen.

Nascido em 2 de maio de 1892 na cidade de Breslau (Breslávia), na Alemanha (atualmente Wrocław, Polônia), Richthofen foi um notório piloto de caça que atuou durante a segunda guerra mundial, chegando a somar a imbatível marca de oitenta vitórias. Richthofen pilotava um triplano vermelho (Fokker DR.1), e por deter o título de “Freiherr” (“Senhor Livre”), uma posição nobre traduzida como “barão”, ganhou o significativo apelido de “Barão Vermelho”, com o qual ficou mundialmente conhecido.

A técnica de combate do Barão era incrível, Richthofen posicionava seu avião entre o oponente e os raios solares, dificultando assim a visibilidade de seu inimigo e facilitando seu disparo fatal. Orgulhoso, o piloto descrevia seus movimentos da seguinte forma: “Meu avião escala os ares como um macaco e gira como um diabo”. Na letra de Bruce Dickinson essa técnica, e afirmação, são descritas no pré-refão da canção: “Turn like the devil, shoot straight from the sun / Climb like a monkey out of hell where I belong” (Giro como um diabo, disparo em linha reta para sol/ Escalo como um macaco para fora do inferno onde eu pertenço).
Recentemente, a banda lançou um excelente vídeo ao vivo para a música que traz uma divertida “imitação” de Bruce Dickinson, que gesticula junto ao público como sendo um macaco, descrevendo de forma criativa e caricata a técnica avassaladora do Barão Vermelho.
Confira o lindo vídeo da canção:

Logo no início da faixa a letra narra: “Levo uma bala em meu cérebro, dentro de mim, eu sou o rei da dor” (00:47). Essa parte da letra é referente ao tiro que o piloto levou em julho de 1917. Aliás, muitos julgam que a imprudência (e morte) do Barão em sua última batalha foram devido ao projetil alojado em sua cabeça, este que o limitou desde então. Richthofen morreu em combate no dia 21 de abril em 1918 próximo a Amiens, na França. A causa de sua morte foi um tiro fatal no coração.
Shadows of The Valley
“Shadows of The Valley” é uma das músicas mais ambíguas do Iron Maiden, abrindo vários caminhos para interpretações e deduções. Muitos dizem que a faixa foi baseada, assim como a música “The Pilgrin” do álbum “A Matter of Life and Death”, no livro “The Pilgrim’s Progress From This World To That Which Is To Come”, do autor britânico John Bunyan.
Já outros afirmam que a canção foi inspirada em uma foto feita pelo famoso fotógrafo inglês Roger Fenton. A imagem em questão é uma das mais populares do artista e chama-se “Shadow of The Valley of Death”. A foto foi concebida no local da guerra de Crimeia e registra a localidade onde a cavalaria britânica enfrentou os russos. Este local é o mesmo descrito no conhecido poema “Charge of The Light Brigade” de Alfred Lord Tennyson, poema este que serviu de inspiração para o Iron Maiden na famosa música “The Trooper”.

O fato é que não se pode afirmar com exatidão o contexto da faixa, até porque ele permeia até mesmo a versículos bíblicos, como no caso do trecho: “Into the valley of death fear no evil / We will go forward no matter the cost” (05:50), (dentro do vale da morte não tema nenhum mal, nós seguiremos em frente), que se assemelha e muito com o salmo 23:4: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo”. Porém, em minha opinião, a canção é uma ótima junção de todas essas ideias, visto que a faixa traça seu caminho descrevendo o pecado humano e sua máxima, todas em contraponto a sentimentos diversos.
Tears of A Clown
Umas das melhores músicas do trabalho foi também uma das mais aguardadas, já que abertamente a banda afirmou se tratar, em parte, sobre o ator e comediante Robin Williams.
 A canção faz analogia em torno da depressão que assola muitos artistas que trabalham com humor. Por incrível que pareça, isso chega a ser “comum” no meio da comédia, tanto que existem psicólogos especializados exclusivamente neste assunto. Aparentemente existe uma relação entre uma suposta felicidade e a profunda depressão, no caso, as risadas tornam-se um tipo de defesa contra os problemas corriqueiros da vida, escondendo através da “alegria” uma dor incalculável.
O ator Robin Williams, que dispensa apresentações, foi encontrado morto em sua casa, em Paradise Cay, Califórnia, no dia 11 de agosto de 2014, após cometer suicídio por asfixia. Segundo Mara Buxbaum (agente do ator), Williams estava sofrendo de uma depressão muito complicada.

“Tears of A Clown” (Lágrimas de Um Palhaço) faz menções diretas a Pierrot, personagem da Commedia dell’Arte, um palhaço triste que é apaixonado pela Colombina, esta que lhe parte o coração ficando com o Arlequim. Pierrot, que na verdade é uma variação francesa do Pedrolino italiano, é comumente representado usando roupas largas e brancas, por vezes metade pretas, rosto branco e uma lágrima desenhada abaixo dos olhos, uma de suas características latentes é a ingenuidade.

The Man of Sorrows
Quando vivemos “mecanicamente”, onde todo o nosso esforço está no trabalho, problemas diários, contas e todos os empecilhos que a sociedade vorás impõem, acabamos deixamos nossos sonhos pessoais passarem em branco, como se “jogássemos pedrinhas na maré do oceano” (00:49), abrindo assim, um parêntese para sermos homens amargurados.
“The Man of Sorrows” traz de forma peculiar este questionamento e propõem que ao observarmos nossos erros. Ao observar o homem de amarguras, podemos perceber “através da névoa da verdade” (01:30), aquilo que por muito tempo julgamos ser apenas ilusão.
Empire of The Clouds
A faixa de encerramento do álbum não poderia ser mais grandiosa, “Empire of The Clouds” é simplesmente épica. A canção composta no piano por Bruce Dickinson relata de forma magnífica os acontecimentos reais ocorridos com o dirigível R-101.
O dirigível R-101 foi construído no final da década de 20. Coberto pela relva da grandeza, ele representava o orgulho do império britânico.
A aeronave era a maior embarcação rígida já construída, com exorbitantes 220 metros de comprimento. Foi desenhada para que seus tripulantes tivessem o maior conforto e luxo possível, o papel principal do R-101 era fazer viagens distantes, para Índia e Canadá, por exemplo.


Devido à diversas alterações no projeto original, a aeronave demonstrou ter problema de peso, e por mais que os engenheiros tentassem, nada foi resolvido, as inúmeras “soluções” acabavam por deixar a aeronave ainda mais pesada.
A pressão política sobre o ministro do ar, Lorde Christopher Thompson, era muito grande devido aos gastos. O fator político decidiu então que o R-101 faria seu voo inaugural durante a conferência imperial de 1930. A pressa fez com que testes em altas velocidades e condições climáticas desfavoráveis não fossem realizados com satisfação. Então em 04 de outubro de 1930 o R-101 faz seu primeiro (e último) voo com destino a Karashi.
A música começa neste ponto. Uma linda melodia enche os ares com uma calmaria quase que poética, descrevendo perfeitamente o clima calmo daquela manhã de 1930:
Para cavalgar a tempestade, para um império nas nuvensPara cavalgar a tempestade, eles subiram a bordo de seu fantasma prateadoPara cavalgar a tempestade, para um reino que viráPara cavalgar a tempestade, e dane-se o resto… esquecimento
Bruce recita um canto majestoso, como se o próprio céu se curvasse a grandeza daquela aeronave. Então a próxima linha musical desenha seu enredo narrando o voo e seus tripulantes, estes que celebravam a viagem e riam diante a possibilidade da aeronave cair: “uma em um milhão” ironizava a realeza, para a Índia o “tapete mágico” deveria seguir:
Realeza e dignitários, Brandy e charutosGigante Dama Cinzenta dos CéusVocê os acolhe a todos em seus braçosA milionésima chance, eles riramDe derrubar o dirigível de Sua Majestade‘Para a Índia’, eles dizem, ‘Tapete mágico, vá voando’Em um funesto dia de OutubroA névoa nas árvoresAs pedras suam com o orvalhoO nascer do sol, vermelho antes do azulPendurado no mastroEsperando pelo comandoA aeronave de Sua MajestadeO R-101
A música vai ganhando peso e um clima carregado e preocupante. As guitarras e bateria tecem climas mais densos. Ao ponto que enaltece o gigante no ar Bruce recita e antecede a fúria que estava por vir:
É a maior embarcação feita pelo homemUm gigante dos céusPara todos os incrédulosO Titanic cabe dentroRufem os tambores, apertem sua pele de lonaPrateada no solNunca testada com a fúriaCom a surra que estava por virA fúria que estava por vir
O peso toma conta, como se o peso excessivo do próprio R-101 descrevesse sua história, relembrando com perfeição da tempestade vista a oeste, lamentando pelo ego da tripulação que decide prosseguir mesmo desconhecendo seu “calcanhar de Aquiles”. A força política era gigantesca, medido centímetro a centímetro com a própria marca da aeronave. Porém o destino fazia ali sua alquimia.
Reunidos na penumbraUma tempestade se levantando a oesteO timoneiro observouEm seu equipamento de previsão do tempoTemos que ir agoraTemos que arriscar nossa chance com o destinoTemos que ir agoraPor um político, ele não pode se atrasarA tripulação da nave, acordada por trinta horas de trabalho seguidoMas a nave está em seu sangue, cada músculo, cada polegadaEla nunca voou a toda velocidadeUm teste nunca realizadoSua frágil cobertura externaSeu Aquiles se tornariaUm Aquiles que ainda viriaMarinheiros do céu, uma guarnição endurecidaLeais ao rei, e ao credo de uma aeronaveOs motores batemO telegrafo soaSoltem as cordasQue nos prendem ao chão
Com uma expressão quase que teatral, Bruce encarna o timoneiro como se vivesse através dos olhos do mesmo. Uma parte linda e histórica perfeitamente destrinchada. Uma poesia em forma de música:
Disse o timoneiro ‘senhor, ela é pesada’‘Ela nunca fará este voo’Disse o capitão ‘dane-se a carga’‘Seguiremos nosso caminho esta noite’As pessoas em terra exclamaram, maravilhadasEnquanto ela se afastava do mastroBatizando-se em sua águaDe seu lastro, da frente para trásAgora, ela escorrega para dentro de nosso passado
A cadência toma conta dos acordes, deslizando junto ao primeiro voo do gigante, e é neste momento que o Iron Maiden genialmente, através das guitarras, baixo e bateria, exatamente aos 6:55 minutos reproduz um sinal de código Morse, S.O.S., alertando todos sobre o pedido de socorro dos tripulantes. ESPETACULAR!
Um riff lindo e climático é executado. Quase que se ouve os lamentos da guitarra, então mais uma vez o sinal de S.O.S. é reproduzido, e se transforma numa digitação que nos remete aos tempos áureos de “Hallowed Be Thy Name”. A música decorre e o turbilhão de problemas da aeronave é representado pelo instrumental, culminando no solo de Dave Murray.
A tensão volta com o riff pós-solo (que coisa linda). Neste momento é inevitável a queda do R-101, porém a cadência também parece representar a luta da tripulação para evitar a tragédia:
Lutando contra o vento enquanto ele te assolaSentindo os motores a diesel que te empurram para frenteVendo o canal abaixo de vocêMais e mais baixo dentro da noiteAs luzes estão passando abaixo de vocêO norte da França dormindo em suas camasA tempestade está rugindo ao seu redor‘Um milhão para uma’ é o que ele disse
Após cruzarem a costa inglesa, chegando ao norte a França (que por sinal era bem longe do ponto pretendido), chega-se a região de Beauvais, famosa pela péssima condição climática.
Um riff diferente quebra o clima. A orquestração é envolvente e carregada por uma cortina tragicamente estendida sobre o tema. Bruce continua narrando magistralmente o fato. Sua voz afiada parece comungar junto ao rasgo existente na aeronave, que inundada pela água da chuva, ceifa a vida de homens experientes:
O ceifador está parado ao seu ladoCom sua foice, corta até os ossosO pânico de tomar uma decisãoHomens experientes dormem em seus túmulosSua cobertura está rasgada, e ela está se afogandoA chuva está inundando o corpo da naveSangrando até a morte, e ela está caindoGás flutuador está se esgotando‘Estamos perdidos, companheiros’, veio o lamento
Neste ponto os pianos voltam a ressoar, agora com acordes de tristeza e tensão, até o cume em que Bruce recita versos dolorosos de perda:
Mergulhando numa curva, vindos do céuTrês mil cavalos silenciaram-seEnquanto a nave começava a morrerAs chamas para guiar seu caminhoAcesas no fimO Império das NuvensApenas cinzas em nosso passadoApenas cinzas, no final
Resumido a cinzas, pouco restou do R-101; apenas uma carcaça esparramada no norte da França. Era o fim da primeira era britânica de desenvolvimento de aeronaves, enterrando não somente um sonho, mas também 48 de seus 54 passageiros, incluindo oficiais de alto escalão e o ministro britânico do ar. A música se encerra com tristes frases poeticamente seguidos por um triste e real acontecimento:

Aqui jazem os sonhosEnquanto estou parado embaixo do solNa terra onde eles foram construídosE os motores realmente funcionaramPara a lua e para as estrelasAgora, o que foi que nós fizemos?Oh, os sonhadores podem ter morridoMas os sonhos continuam vivosOs sonhos continuam vivos – os sonhos continuam vivos
Bruce faz sua despedida entre os acordes finais da música. Sua voz amarga trasborda tristeza, porém resplandece em respeito ao R-101 e principalmente aos 48 mortos que fizeram história junto ao IMPÉRIO DAS NUVENS.
Agora uma sombra na colinaO anjo do lesteO Império das NuvensDescansa em pazE em um cemitério pequeno, na igrejaDeitados de frente para o mastroQuarenta e oito almasQue vieram a morrer na França.
Simplesmente incrível! Mais que uma música; uma obra de arte fora do comum! É indescritível o quão épica é essa canção! Vou encerrar essa análise temática com as frases de Bruce a respeito do R-101:

“Os sonhadores podem ter morrido, mas os sonhos continuam vivos”








sábado, 6 de agosto de 2016

Iron Maiden: Análise temática do álbum “The Book of Souls” – Parte 1



Lançado em 4 de setembro de 2015, The Book of Souls deu ao Iron Maiden o primeiro lugar nas paradas inglesas e em mais 23 países, incluindo o Brasil.
O disco que foi lançado em formato duplo, tem como base a temática Maia, trazendo inclusive um Eddie totalmente sombrio com características claras aos habitantes da civilização mesoamericana pré-colombiana, porém, o álbum não é conceitual, arrastando em sua linha gramatical temas adversos.
The Book of Souls, a meu ver, é o melhor álbum lançado pela Donzela desde Brave new world, portando-se grandioso junto a discos clássicos como Powerslave e The Number Of The Beast. Então aqui, no cargo de sommelier, harmonizarei a vocês enófilos, o tema de todas as faixas desta insana obra de arte.
 If Eternity Should Fail
O disco abre com uma das melhores composições já gravado pelo Iron Maiden, “If Eternity Should Fail” é simplesmente espetacular, a faixa que começa com uma expressiva narração de Bruce Dickinson, fala sobre o personagem fictício “Dr. Necropolis”, que aparentemente consegue roubar a alma dos homens.
A música cita a criação do mundo até a origem da raça humana, descreve também a pureza da alma e como somos estranhos crédulos. No refrão, temos uma criativa referência a aceleração do curso natural da humanidade, visto que rizamos a vela de nosso barco (vida), no limite do mundo. A palavra “Reef in” (Rizar), cantada no refrão, é uma técnica náutica que consiste em reduzir o tamanho da vela quando o vento está forte, o rizar aumenta a performance e velocidade do barco.

De forma peculiar, “If Eternity Should Fail” abre vários questionamentos em relação a religião e a humanidade, todos em contraponto com a alma, fazendo inclusive uma analogia entre a queda de lúcifer que brilha abaixo de Deus, e a queda da própria humanidade figurada através Adão e Eva.
A canção, que inicialmente foi composta para um disco solo de Bruce Dickinson, traz ainda uma pragmática referência ao tema principal do disco, logo no início da canção, a letra menciona o Xamã, este que em vários povos indígenas, incluindo claro os Maias, era um tipo de sacerdote que através de um ritual podia entrar em contado com os espíritos.

Speed of Light
A segunda faixa do álbum, que aliás foi o primeiro single de “The Book of Souls”, carrega a soma de 299.792.458 metros por segundo, “Speed of Light” esbanja vontade e trechos que podem ser interessantes aos amantes da física, assim como eu.
A velocidade da luz (Speed of Light), que é representada pela letra C de “constante” ou “Celeritas” (palavra do latim que significa “rapidez”), foi medida pela primeira vez no século 16 pelo astrônomo dinamarquês Olaf Roemer (1644-1710). Com a velocidade da luz comprovada, sabemos hoje que o que vemos a um milhão de anos-luz é a imagem do que havia um milhão de anos atrás.
Musicalmente falando a faixa é excelente, uma guitarra crua junto a um grito visceral de Bruce Dickinson dão boas-vindas ao marcante canto que se desdobra em excitantes momentos. A letra conta de forma simbólica a “corrida humana”, e para resenhar essa simbologia, a banda usa pontos científicos, como por exemplo a “Teoria das cordas” defendida por Stephen Hawking, que entre várias coisas prediz o número de dimensões que o universo deve possuir, a teoria das cordas permite calcular o número de dimensões espaço-temporais a partir de seus princípios fundamentais.
Claramente a canção narra uma viagem espacial, e em vários trechos cita representativamente os buracos negros, nos fazendo pensar que esta viagem seja atemporal. Segundo a teoria da relatividade geral de Albert Einstein, o buraco negro é um ponto do espaço no qual, nada, nem mesmo partículas que se movimentam na velocidade da luz podem escapar. Os buracos negros são resultados das deformações do espaço-tempo, causados após o colapso gravitacional de uma estrela.

“Speed of Light” também foi o primeiro (e até agora único), clip feito para “The Book of souls”. O interessante é que o vídeo, feito totalmente em computação gráfica, faz uma homenagem aos jogos de videogame.
Saiba mais sobre o clip no link abaixo:
The Great Unknown
Com um instrumental introdutório pra lá de introspectivo, onde o baixo executa uma única nota fazendo uma cama climática para o inspirado dedilhado de guitarra, “The Great Unknown” resenha um ar metafórico em relação a humanidade.
Egoísmo, dor, vingança, cobiça e violência são descritos com muita sutileza e criatividade na faixa, inclusive permeando alguns trechos a versículos bíblicos. “The Great Unknown” tem como base mostrar que o ódio de nossa humanidade acabara por fim dando cabo na mesma.
The Red and the Black
Arrisco em dizer que esta música seja, em parte claro, uma continuação da faixa “The Angel & The Gambler” lançado em 1998 no disco Virtual XI, já que em “The Red And The Black” temos mais uma vez o tema proposto em 1998, onde a máxima gira em torno de jogos de azar, especificamente jogos com cartas.
Apesar da música ser ambígua, claramente percebemos que Harris quis representar a vida como sendo um jogo, neste caso um jogo de cartas, demostradas aqui através de dois naipes de baralho, Rainha de Copas (the red) e Rei de Paus (the black).
Musicalmente a faixa é estupenda, com grandiosos 13:33 minutos, a canção se inicia com um “solo” de baixo no tom de “mi” (E), com claras inspirações espanholas, desdobrando-se num excelente riff. O canto vem sempre acompanhado por uma guitarra que executa as mesmas melodias expressadas por Bruce, que aliás faz um ótimo trabalho transformando a faixa numa das melhores do álbum.
Um fato interessante a se ressaltar em “The Red And The Black” é que o nome da faixa também foi usada pelo escritor francês Henri-Marie Beyleno em seu livro “Le Rouge et le Noir” (O Vermelho e o Negro), de 1830. O livro que é dividido em duas partes, porta-se como um romance histórico psicológico, que narra a sociedade francesa no tempo da Restauração antes da Revolução de 1830, supostamente entre 1826 e 1830.
O interessante é que o personagem central do livro, Julien, passa por momentos de angústia, traição, hipocrisia, amor e morte, pontos estes também encontrados na letra de Steve Harris. Vários outros momentos permeiam aos acontecimentos do livro, porem nada tão concreto, visto que o texto do baixista abre caminho a várias interpretações.
When the River Runs Deep
Em “When the River Runs Deep” temos uma ótima analogia em relação a morte, aqui de uma forma metafórica, a letra trata nossa vida com um rio, este que pode ser raso em certos pontos e profundo em outros, conturbados em certos momentos, porem brandos em vários outros, além do que, o rio sempre corre rumo ao mar (morte).
É interessante quando analisamos a letra por esta ótica, já que o texto traz sufocantes questionamentos em relação a erros que nos leva, de uma forma ou de outra, a um fatídico afogamento de nossa vida. Não há tempo para chorar quando alguns de nós estão morrendo, principalmente quando o rio que corre profundo em nos, está cada vez mais próximo ao mar de nossa existência.
The Book of Souls
Sem dúvida nenhuma “The Book of Souls” é uma das melhores composições do ano. Com um violão climático e um riff fenomenal, a faixa descreve em vários momentos fatos históricos sobre a civilização Maia.
A civilização Maia foi uma cultura mesoamericana pré-colombiana, que teve na escrita e língua grande notoriedade. O sistema de escrita Maia era uma combinação de símbolos fonéticos e ideogramas, chamados de Hieróglifos.

Os Maias tinham como base econômica a agricultura, principalmente do milho, no qual dispunha de três tipos deles, porém contavam também com o algodão, tomate, cacau, batata e frutas.
Sua organização na agricultura só não era mais notável que seu sistema matemático, tanto que Produziram observações astronômicas amedrontadoramente precisas; seus diagramas relacionados aos movimentos da Lua e dos planetas, são iguais ou mesmo superiores aos de qualquer outra civilização que tenha como apoio instrumentos óticos. Tal matemática superior, dava aos Maias um poder de prever eclipses solares, lunares e até mesmo mudanças no ciclo do sol, transformando seus calendários em verdadeiras “pedras de prever o futuro”.

Logo no início da canção, a letra relata um sacrifício (Sacrifices buried with kings). Quando um Rei, Rainha ou mesmo um Sacerdote morria, os Maias sacrificavam uma pessoa próxima do falecido, podendo ele ser um membro da família ou um amigo querido, o objetivo era que o sacrificado ajudasse o Rei, Rainha ou Sacerdote a entrar no mundo espiritual. Geralmente eram sacrificados pequenos animais para oferecer aos Deuses, porém, quando algo fora do comum ocorria, entregavam então sacrifícios humanos, e acreditem, muitos desses sacrifícios eram de crianças, isso porque pregavam que as almas dos pequeninos eram puras.




quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Stygma IV : O maior expoente Austríaco de Power Metal



Em 1996 na cidade de Salzburg – Áustria, o guitarrista e tecladista Günter Maier decide mudar o nome de sua banda, o BIG HEAT, para STIGMATA. Mesmo com o Big Heat recebendo um certo reconhecimento, tendo inclusive lançado dois álbuns oficiais, “Scenes of Fire” de 1992 e “Grand Ominous Dreams” de 1995, Günter Maier opta por mudar o nome, já que as linhas musicais do grupo estavam seguindo um “punch” mais Heavy, no qual, o nome Stigmata seria mais viável.
Sendo assim, o grupo formado por RITCHIE KRENMAIER (Voz), GÜNTER MAIER (Guitarra e Teclados), ALI HILZENSAUER (Baixo), HERB GREISBERGER (Bateria), edita a arte da capa de “Grand Ominous Dreams”, e relançam o álbum como Stigmata. O disco em questão é simplesmente matador, repleto de ótimas linhas de guitarras e marcantes frases vocais, “Grand Ominous Dreams” é um verdadeiro petardo. Músicas longas como Spirits Rising, The Fool e a linda The Edge, já transpiravam o propósito do grupo com genialidade.

Após a mudança do nome, tudo corria de vento em popa, até que uma banda, também chamada Stigmata, entra na justiça reclamando ser dona da marca, então, para evitar o processo, o grupo decide acrescentar o apêndice “IV” (quatro em número Romano), ao nome, fazendo uma referência aos quatro membros da banda, e permeando uma analogia em torno das chagas dos estigmatizados.
Em questão de curiosidade, os estigmatizados (religiosamente falando), são pessoas que adquirem as marcas da crucificação de Jesus Cristo, como a ferida causada pela coroa de espinhos, os ferimentos nos punhos e pés, além do corte no tórax. O primeiro estigmatizado registrado na história foi São Francisco de Assis, porém, o mais conhecido creio ser São Pio de Pietralcina, cujos estigmas foram analisados por médicos e estudiosos.
Como STIGMATA IV, a banda lança em 1998 pela gravadora alemã Noise Records, o disco “Solum Mente Infirmis”, que definitivamente definiu o estilo do grupo. Músicas complexas e bem compostas como as grandes Sacred Man e In Your Eyes, ignoram completamente o lado comercial, mostrando uma banda integra e sem floreios modistas. Com “Solum Mente Infirmis” a banda ganha total confiança da gravadora, tanto que lançam no mesmo ano o magnifico “The Court of Eternity”, disco este que é considerado por muitos como sendo a obra prima do conjunto.


“The Court of Eternity” colocou o Stigmata IV no mesmo patamar dos grandes nomes do Power Metal mundial, mais como nem tudo nessa vida são flores, um novo processo referente a patente do nome assolou a banda, e para solucionar de vez esse problema, optam por substituir Stigmata IV por Stygma IV, mantendo em parte a ideologia do nome, e resolvendo de vez o problema judicial.
Mesmo íntegros em suas composições, a nova mudança de nome deixou um pouco a popularidade do grupo em baixa, creio que muitos, inclusive as mídias especializadas, demoraram a assimilar mais uma mudança. Em 2001, a banda lança pelo pequeno selo alemão Rising Sun, um incrível disco intitulado “Phobia”, que manteve o padrão de “The Court of Eternity”, porém sem a mesma força de divulgação. O disco traz músicas lindas como Dying e Gethsemane, que somadas a petardos como Inhumanity e Madness dão um ar diferencial a obra. Vale lembrar que “Phobia” conta ainda com um excelente cover para a canção 22 Acacia Avenue do Iron Maiden”, além de uma interessante versão para “I.N.R.I. (overture to Jesus Christ Superstar)” do lendário musical da Broadway – Jesus Christ Superstar.

Em 2002 a banda lança, também pela Rising Sun Records, o álbum “The Human Twilight Zone”. O disco mais uma vez mantem o alto padrão nas composições, provando que a banda sempre teve o diferencial dos grandes. Faixas fenomenais como Calculation Towers, The Void e The Human Twilight Zone, são de cunho grandiosos, aliás, o disco todo decorre com grandeza, destilando linhas vocais caprichadas e de apego sentimental, todas acompanhadas por excelentes e inspiradas bases de guitarra e baixo. Dois anos após o lançamento de “The Human Twilight Zone” a gravadora S.A.D. Music decide relançar o disco, porém com uma capa diferente da arte original.

Os dois álbuns lançados como Stygma IV, deu a banda um gás a mais, e para consolidar essa energia, decidem então lançar em 2003, de forma independente, um disco ao vivo chamado “A History in Pain – Live”. O registro contem pouco mais de 72:00 minutos e traz músicas de todas as fazes da banda.

O último álbum de inéditas a ser gravado pelo Stygna IV, é sem dúvida nenhuma uma obra prima metálica, “Hell Within” foi lançado em outubro de 2004 pela gravadora francesa NTS e mostra todo o feeling do grupo. Em “Hell Within” podemos perceber uma banda madura que executa com precisão a ideia proposta, em minha opinião, “Hell Within” e “The Court of Eternity” são as melhores obras da banda, figurando-se entre as mais inspiradas na história do Power Metal mundial. No final do ano de 2004, a gravadora S.A.D. Music relança o disco em formato digipack com a arte da capa diferente e em copias limitadamente numeradas, o disco também trazia um belo cover para a canção “Music” do cantor, guitarrista e tecladista inglês John Miles.

O Stygma IV é sem dúvida nenhuma o maior expoente do gênero na Áustria, que infelizmente, depois do lançamento de “Hell Within”, decidiu encerrar suas atividades devido aos problemas de saúde do baterista Herb Greisberger.
Mesmo com muita dificuldade, o Stygma IV se mostrou superior, e com genialidade, brindou seus ouvintes com músicas viscerais e marcantes. Em 2005 uma coletânea chamada “Rotting Corpses” foi lançada pelo grupo de forma independente, o disco foi disponibilizado somente via Web pelo site da banda, a coletânea na verdade é uma compilação de faixas raras e regravações, contendo inclusive dois covers, uma para “Heaven and Hell” do Black Sabbath e outra para “I’m A King Bee” de Slim Harpo.
Se existe uma banda importante para o cenário metálico Austríaco, ela com certeza se chama Stygma IV, mesmo com muitas mudanças no nome, o grupo soube se manter integro e nunca baixou a cabeça. Resta agora a torcida para que o grupo volte, pois bandas assim, jamais devem ser enterradas pelas areias do tempo.
Assista os vídeos abaixo e conheça um pouco mais sobre a banda:



Iron Maiden: Músicas da era Blaze Bayley cantadas por Bruce Dickinson


Quando o vocalista decide deixar a banda, uma grande incógnita passa a rondar o futuro da mesma, principalmente quando esse vocalista gravou os discos mais populares do grupo. Muitas vezes uma parcela do público acaba torcendo o nariz para o substituto, e por consequência, condenam os trabalhados gravado pelo músico recém chegado.
O Iron Maiden passou duas vezes por isso, ambas devido a Bruce Dickinson. Quando Bruce substituiu o então vocalista Paul Di’Anno, vários fãs criticaram a entrada do frontman, porem, o primeiro registro em estúdio do músico com a banda, foi simplesmente magnifico, e os fãs mais críticos acabaram dando o braço a torcer, tanto que Bruce virou um ícone.
Os anos se passaram, e Bruce decide então deixar a donzela, trazendo novamente para o Iron Maiden os velhos problemas de outrora. É ai que entra na jogada Mr Blaze Bayley, que entra para banda e não agrada o público, mesmo assim, dois discos foram gravados com ele, discos estes, que em minha opinião são excelentes, apesar de controversos.
Como muitos de nós sabemos, a estadia de Blaze não foi muito boa, problemas extra palco como o acidente de motocicleta que lesionou gravemente seu joelho e adiou o início da turnê de The X Factor, mais alguns problemas de saúde, acabaram causando sua demissão em 1999.
“Era uma época diferente para o Iron Maiden. A indústria da música estava mudando, os MP3s estavam chegando, o hardware estava começando a desaparecer. As vendas de CDs estavam caindo para todos ao redor do mundo e era uma época em que muitos fãs antigos do Maiden não queriam Blaze Bayley nos vocais, e lá estava eu, procurando letras e músicas para o terceiro álbum, o que eu pensava com meu tolo coração: ‘Esse aqui vai mudar as coisas.’ Os fãs vão pensar: ‘Agora nós entendemos porque Blaze está aqui. Isso é realmente bom.’ Mas eu não tive essa chance.” explicou Bayley.
Blaze Bayley não teve esta chance, porem deixou na história do Maiden músicas excelentes, tanto que algumas delas viraram clássicos. Logo após sua demissão, Bruce Dickinson retorna ao Iron Maiden e acerta as coisas. É inegável a qualidade técnica de Bruce, porém, como será que ele se sairia cantando músicas da era Blaze? Acredite, muito bem! vamos a algumas delas:
1- Man On The Edge


2- Lord Of The Flies


3- Sign Of The Cross


4- Futureal


5- The Clansman